Personalidade do Mês: Filipe Malta da Costa

Personalidade do Mês: Filipe Malta da Costa

Filipe Malta da Costa, conta detalhes sobre a sua infância, os seus ídolos, as suas principais referências, os seus melhores e piores momentos no hipismo, o seu dia-a-dia e no final, ainda fala sobre os seus gostos pessoais.

Saiba um pouco mais sobre este ambicioso, simpático e competitivo cavaleiro de saltos de obstáculos.

EQ: Quando e onde começou a montar?
FMC: Em jeito de brincadeira costumo dizer que comecei a montar na barriga da minha mãe, mas sozinho só aos cinco anos, e o bichinho não parou de crescer. Não tive hipóteses de fugir ao meu ADN.

EQ: O que o fez começar a gostar do hipismo? Quem foram os seus incentivadores?
FMC: De inicio foi sem dúvida a minha mãe, que desde criança me levava para o “Jóquei” e nunca conseguiu esconder o enorme gosto que tem pelos filhos montarem. Só mais tarde, por volta dos meus 9/10 anos é que comecei a montar mais regularmente com o meu tio, Manuel Malta da Costa que me deu todo o apoio e ajuda para eu poder chegar o mais longe possível e conseguir os resultados que consegui.

EQ: Quais foram os seus principais professores no hipismo?
FMC: Quanto aos professores sinto-me um privilegiado pois sempre tive ajudas preciosas: Diariamente, foi a minha mãe que desde os 5 anos me levava ao “Jóquei” e me ia, e ainda me vai dando uma ajuda, porque quando se monta a maior parte do tempo sozinho, vamos criando pequenos vícios que não nos damos conta. Nos fins-de-semana e concursos tenho sempre o olhar atento do meu pai que me vai dando conselhos e com quem troco opiniões. Mas o trabalho de fundo foi é e será sempre, com o meu tio Manuel, desde o trabalho do dia-a-dia à competição. São as bases de equitação que ele me ensinou e os princípios e valores que ele me transmitiu que fizeram de mim quem sou.

EQ: Quais são ou foram os cavalos que mais o marcaram ou marcam? Porquê?
FMC: Acho que todos, uns com os quais obtive bons resultados e outros que nem tanto, mas me foram dando lições e fizeram parte de um percurso de aprendizagem que é necessário, e em que os tropeções e quedas nos fortalecem e nos fazem chegar mais longe. Mas não posso deixar de referir alguns deles como o Red por ter sido o com ele que fiz a minha primeira prova, a Ravina da Torre, Pepermint, Zerai por ter conquistado os meus primeiros títulos, o Aramis, a Sheba e o Joyau du Manoir por serem cavalos extremamente competitivos com os quais eu nunca dei uma prova por vencida, a Concord por ter sido com ela que eu comecei a saltar mais frequentemente Grandes Prémios de CSN-A com apenas 16 anos, e como não podia deixar de ser, o Guepard de Brekka com quem eu nos últimos 7 anos tenho partilhado grande parte do meu sucesso, quer a nível nacional como internacional.

EQ: Quais as vantagens e desvantagens de disputar provas fora das nossas fronteiras?
FMC: As vantagens são inúmeras, e eu penso ter aproveitado parte delas, pois felizmente pude passar quase todos os anos, 3 a 4 meses a fazer concursos em França, Bélgica, Holanda… é outro mundo, principalmente quando atravessamos os Pirenéus, tomamos consciência de outra realidade, outra filosofia, com concurso de terça a quinta-feira para os cavalos novos poderem evoluir, e de sexta a domingo a competição é dura, com cavaleiros muito bons que não se querem afirmar em cada semana mas sim em cada prova.As desvantagens prendem-se essencialmente com a nossa localização geográfica: somos um país periférico da Europa e é economicamente pesado deslocar toda a logística necessária para fazer alguns concursos no estrangeiro. Mas se alguém quiser ser profissional tem de ter a coragem de dar esse passo.Link: 1º lugar no Grande Prémio CSI-J de Madrid (17 anos)

EQ: Como é o seu dia-a-dia actualmente?
FMC: No tocante aos cavalos, durante a semana estou a cavalo por volta das 7h30 / 8h00, geralmente, e monto 3 a 4 cavalos para chegar ao escritório as 10h30.  No fim-de-semana, no caso de não ter concurso, monto todos os cavalos e começo por volta das 9h30 para os meus pais/proprietários poderem desfrutar de alguma maneira todo o investimento inerente a este desporto.

EQ: Pelo que sei está ligado ao ramo imobiliário que também lhe corre muito bem. Como é que consegue conciliar os cavalos com sua vida profissional?
FMC: Sim, não me posso queixar porque felizmente vai tudo correndo bem, tenho feito alguns negócios imobiliários dos quais me tenho saído bem. Tenho de agradecer aos meus pais por isso, porque quando acabei o secundário e o mais fácil para quem não gostava muito de estudar, seria querer ser profissional, fui “obrigado” a fazer um curso superior, o qual seria para os meus pais uma salvaguarda para o caso de no futuro ter um acidente que me impossibilitasse de montar a cavalo, sendo graças a eles que acabei por tirar o curso de 4 anos de Gestão imobiliária, e fiquei a gostar tanto que mal o acabei, comecei a fazer um pouco de mediação. Mais tarde, comecei a fazer algumas parcerias na recuperação de apartamentos e prédios e posterior venda, e mais recentemente tenho comprado, recuperado e vendido a título pessoal alguns apartamentos, todos com um denominador comum, óptima localização em zonas nobres com vista.

EQ: Como consegue conciliar tudo?FMC: Essa é uma pergunta complicada, ainda mais agora que estou casado. Penso que se gostamos do que fazemos, com mais ou menos sacrifício tudo se consegue. Não consigo viver parado!

EQ: Como é ter um tio que foi olímpico e detentor de um palmarés invejável?
FMC: É um grande orgulho e uma enorme honra. É sem duvida um nome incontornável do hipismo que abre portas aonde quer que seja, é reconhecido não só pelo seu percurso de cavaleiro mas também como professor e homem de cavalos. Mas é também para mim uma grande responsabilidade, sei que por isso, esperam de mim sempre mais e melhor.

EQ: Quais são as principais diferenças entre o seu estilo de equitação quando comparado com o de Manuel Malta da Costa?
FMC: Acho que (infelizmente para mim) não são comparáveis. Como já referi, o meu tio Manuel transmitiu-me as coisas mais importantes, mas que actualmente são tão pouco valorizadas, que são as bases de equitação, sempre com um enorme sentido competitivo e tento copiar dele o profissionalismo, a determinação, empenho e perseverança e nisso penso ter aprendido muito com ele. Mas cada um tem o seu estilo assente nas mesmas bases, ideias e princípios.

EQ: Conte alguma passagem da sua carreira que considera inesquecível e alguma que gostaria de esquecer.
FMC: O balanço é positivo. Não fiz nada que me envergonhe para querer apagar da minha memória, e quem me conhece sabe que não sou pessoa de andar a viver das glórias do passado, «se não era do Benfica».Foi uma das coisas que aprendi com Julien Epaillard, um cavaleiro francês incrivelmente competitivo, que depois de ter vencido cinco provas num CSI, me disse uma coisa que nunca mais me saiu da cabeça: “Os cavaleiros/proprietários/pessoas do meio hípico só dão algum reconhecimento e valor apenas a quem ganha. Ninguém quer saber de quem ficou em segundo, e essas mesmas pessoas têm memória curta. Achas que alguém se lembra que fui campeão da Europa de Young Riders no ano passado? Todos os fins-de-semana preciso relembrar às pessoas que existo”.  Esta é a mentalidade vencedora.O passado foi bom, mas vivo o presente e do futuro, não vou olhar nostalgicamente para o que já fiz porque sou capaz de fazer melhor.

EQ: Vive boa parte do seu dia-a-dia ligado ao hipismo. Existe algo que o deixa aborrecido neste meio por algum motivo. Na sua opinião, o que deveria ser diferente?
FMC: Eu, posso dizer que sou do tempo em que nos Campeonatos da Juventude tinhamos por volta de 250 conjuntos no total. Lembro-me de entrar num Campeonato de Juvenis e serem 120 conjuntos a participar. Entristece-me quando vejo que este ano, tivemos na final dos campeonatos da juventude apenas 68 conjuntos no total. Lamentavelmente isto diz muito do estado do nosso desporto, e a responsabilidade é dos altos dirigentes do meio hípico, que se servem dos cargos para satisfazer caprichos pessoais e de amigos.Para além de não se fazer nada no sentido de fomentar o nosso desporto e cativar os inúmeros miúdos – sim, porque passa por eles o futuro do nosso desporto, jovens que adoram montar a cavalo e que não têm condições para evoluír. Acresce a isso o descrédito total do hipismo com a nomeação de seleccionadores cadastrados para os juniores e jovens cavaleiros, seleccionadores de seniores que vêm para vender cavalos e acções de pincho colectivo, impunidade à delinquência, testes de doping na gaveta… Quais são os pais que querem que os seus filhos sejam educados neste meio? Se calhar só os 68 pais dos miúdos que fizeram os campeonatos este ano!

É necessário repensar tudo desde a base da pirâmide, com melhores condições nas escolas, professores mais instruídos, fomentar a organização de mais poules e concursos da juventude com inscrições baratas, proibir os cavaleiros de categoria “A” de poderem tirar os prémios aos juvenis e juniores nas provas de 1,20m, credibilizar o desporto punindo atempadamente e com mão pesada os infractores (testes positivos no doping / caneleiras de picos / pincho) e irradiando quem recorrer nas mesmas faltas.Link: CSIO de Lisboa 2003 – Taça das Nações

EQ: Qual foi a razão porque não foi seleccionado para disputar o CSIO de Madrid onde sempre conseguiu excelentes resultados e para a Taça das Nações do CSIO de Lisboa 2008?
FMC: Essa é uma pergunta que deve ser feita ao seleccionador de seniores. Mas o que se passou este ano foi que Madrid passou para CHIO***** e eu juntamente com os proprietários do Guepard achamos que o cavalo não estava preparado para disputar ao nível que nós gostaríamos a prova de qualificação o Grande Premio e a Taça das Nações do CHIO de Madrid e logo quatro dias depois estar a repetir a mesma dose no CSIO de Lisboa. Disse ao seleccionador nacional que iria a Madrid saltar a qualificação e o GP e se o cavalo estivesse a saltar bem e o sentisse bem fisicamente faria o CSIO de Lisboa. Foi-me logo negada a ida a Madrid, porque quem fosse a Madrid, teria de saltar a Taça das Nações e seriam esses mesmos a saltar a Taça das Nações de Lisboa.É esta a filosofia do antigamente em que era o Estado que comprava os cavalos, pagava um ordenado aos cavaleiro, veterinários, tratadores e ferradores e quando esses rebentassem, o Estado comprava outros; agora os tempos são outros, e hoje quem tem cavalos bons sabe que os tem de preservar. Só o cavaleiro é que pode avaliar a melhor gestão que terá de fazer do seu cavalo, para conseguir os melhores resultados pessoais que forçosamente serão bons para o país.

EQ: Qual é o seu grande objectivo no hipismo? Sente que está no caminho certo para atingi-lo? Quais as suas perspectivas para 2009?
FMC: As minhas metas vão-se criando de ano para ano, mas encaro sempre o ano seguinte com o objectivo de melhorar tudo o que fiz no ano anterior, tanto a nível técnico como a nível de resultados. Ponho sempre a fasquia alta. E é muito, mesmo muito difícil ficar satisfeito com um concurso que tenha feito, quero sempre fazer melhor no próximo. Se acabar um concurso satisfeito é muito mais difícil trabalhar durante a semana porque no subconsciente não se tem muito mais a melhorar, relaxa-se um pouco mais e aligeira-se o trabalho e rapidamente caímos num facilitismo e laxismo em que não quero cair e é essa a minha fórmula para continuar a trabalhar mais e melhor. É um desporto demasiado caro para andarmos cá a fazer “número”.

Talvez o objectivo desta pergunta fosse saber se não está nos meus horizontes participar em Campeonatos da Europa, Mundo ou mesmo Jogos Olímpicos? Sinceramente não tenho nenhuma ideia nesse sentido e isso obrigaria a uma dedicação total que me é impossível, e participar por participar não contem comigo.

PERFIL

Nome completo: Filipe Ferreira dos Santos Malta da Costa
Data de Nascimento: 25 de Abril de 1980.
Local de Nascimento: Lisboa
Um ídolo: Não pode deixar de ser Manuel Malta da Costa
Um passatempo: Correr na praia.
Se não fosse cavaleiro, seria: Qualquer coisa ligada ao imobiliário
Uma qualidade: Perseverança
Um defeito: Detesto perder, mesmo a feijões…
Um livro: Leio pouco
Um filme: Prison Break
Uma actriz: Soraia Chaves
Um estilo musical: Qualquer
Um carro: “Smart” para Lisboa
À Mesa : Sushi
A sua Equipa: Sporting
Lugar que gostaria de conhecer: Dubai (vou lá este ano)
Uma mania: Se me correr bem o dia de concurso uso a mesma gravata no dia seguinte.

Filipe Malta da Costa – Percurso & Palmarés

Aos 4 anos começou a fazer volteio, aos 5 começou a montar sozinho, aos 6 deu o seu primeiro salto, e quando completou 7 anos, fez o seu 1º concurso de saltos na Aroeira.Aos 8 anos, ficou em 3º no Campeonato de Iniciados, aos 9 anos foi campeão de juvenis, aos 10 anos foi campeão de juvenis, aos 11 anos Vice-campeão de juvenis, tendo ganho a Taça de Juniores individual e por equipas, aos 14 anos.Tem inúmeras classificações em Internacionais de Juniores em França e classificações nas provas médias do internacional sénior de Sotogrande – Espanha. Aos 16 anos ficou classificado no GP do CSN-A de Lisboa, venceu inúmeras provas internacionais, nomeadamente no CSI-J de Auver e CSIO-J de Lisboa e classificações no CSIO sénior de Lisboa. Com 17 anos conquistou o GP do CSI-J de Madrid e inúmeras classificações em GP’s CSN-A, como o 2º lugar na Companhia das Lezírias, 3º em Rio Frio, Vimeiro e Lisboa.Em 2002, ficou em 4º lugar no GP do CSI de Auver e 1º no CSI de Amiens. Obteve 4 extraordinárias classificações no CSI**** de Madrid. Em 2003 fica em 3º no GP do CSI**** Madrid, 6º no GP do CSIO Lisboa, 2º no troféu Ibérico, 4º no GP do CSI de Barcelona, 9º no GP do CSI***** da Corunha com Guepard de Brekka. De 2004 a 2006 foi somando ao seu palmarés várias vitórias nacionais e internacionais com Guepard de Brekka, Joyau du Manoir e Hobby de B´Neville.Em 2007 venceu vários GP sendo dois GP em Vilamoura, CSI Vejer, CSI Azeitão. Em 2008 venceu 5 provas e foi 3º no GP do CSI Vilamoura Equestrian Tour, 9º GP do CSIO*****Lisboa, 3º GP e vencedor do Pequeno GP do CSI***** Vilamoura, 8º e 10º nos GP’s do CSI**** Vimeiro e 5º GP CSI Comporta.

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