Paulo Caetano – figura incontornável do cavalo português

Paulo Caetano – figura incontornável do cavalo português

 

É sempre com renovado prazer, que se lê ou ouve, alguém que eloquentemente interage no palco da funcionalidade, em vertentes culturais aparentemente tão opostas como a dressage e o toureio. A mesma postura de elegância e saber que vemos no Paulo a cavalo podemos encontrar nesta curta entrevista.

RA – Internacionalmente é cada vez mais percetível uma vertiginosa aproximação dos warmbloods a algumas das características que sempre estiveram na mente de quem construiu o padrão da raça Lusitana. Os andamentos estão mais elevados, e há um notório aumento da finura destes cavalos. Considera que a generosidade do Lusitano é igualmente passível de ser introduzida nos warmbloods?

PC – Na minha opinião, o que parece existir no atual universo da Dressage, em todos os seus sectores, criadores, juízes, treinadores, cavaleiros, é uma consciência cada vez mais clara, do que é um cavalo de sela de verdadeira qualidade e da importância da equitação clássica com base na mais pura doutrina académica. Tem existido nos últimos anos, a meu ver felizmente, quer por parte de quem está envolvido na evolução quer do Lusitano quer do Warmblood uma tendência para convergir na direção de um ponto ideal onde se situam simultaneamente um cavalo ágil, leve, forte e gracioso e um cavaleiro com uma consciência absoluta da escala de treino como base doutrinal da sua técnica e com o talento para fazer evoluir uma disciplina desportiva no sentido da arte, que é, a meu ver, a mais interessante evolução que esta competição pode seguir, atingindo assim o estatuto como uma das manifestações desportivas mais belas e emotivas.

 

Foto: Maria Caetano / Coroado AR

RA – Segundo palavras do Paulo “a raça desenvolveu-se, e ainda bem, muito mais depressa que os regulamentos e as estruturas que a tutelam”. Considera que o alcance da fasquia dos 76% a que o conjunto Gonçalo Carvalho/Batuta chegaram, pode ser massivamente alcançado por mais cavalos Lusitanos, na manutenção de um pressuposto em contraciclo com as estruturas e regulamentos que tutelam as raças dos cavalos de qualidade centro europeus (onde as Associações promovem avaliações funcionais)?

PC – A velocidade com que se tem desenvolvido a raça é um facto. A prova irrefutável são as metas de qualidade que os cavalos lusitanos continuam a ultrapassar quer no Toureio a Cavalo quer na Dressage ao mais alto nível. No caso da Dressage que, julgo entender, ser o quadrante desta entrevista, é notável a quantidade de Lusitanos que têm integrado sucessivamente a equipa Portuguesa e não só, nas principais competições internacionais, com resultados sucessivamente crescentes.

Na atualidade, à cabeça desse já vasto grupo surge a Batuta. A Batuta é um animal especial do qual eu sou incondicional admirador desde a primeira vez que a vi ainda poldra. Independentemente de muitos outros aspetos que tipificam a raça, a Batuta possui um conjunto de vantagens para esta disciplina, tais como três a quatro exercícios com notas com um potencial superior a 8, um bom passo e uma silhueta impactante em pista, que a projetam para notas próximo dos 75% em Grande Prémio. A meu ver continua a ser um animal com potencial de crescimento e não conheço razões que a impeçam de continuar a evoluir. A minha perspetiva contínua otimista. Há 10 anos acreditei que em breve teríamos cavalos nos 20 primeiros das três grandes competições mundiais, hoje acredito que o cavalo lusitano que será pódio em alguma destas três provas, já nasceu.

Tal como, a partir de Jerez (JEM), se verificou a saudável reviravolta de retorno ao classicismo, à emoção e a plasticidade da equitação, que veio revalorizar cavalos com características próximas do nosso e também os nossos cavaleiros, tendência que foi responsável pela ascensão de Países como o nosso e, muito em particular, a Espanha, tendo reflexo em todo o mundo do ensino que adotou como novo paradigma centro europeu o Totilas, a próxima evolução, assente na anterior, continuará no sentido da máxima qualidade da equitação, em que a precisão, o poder e a expressividade não poderão estar dissociados de uma imagem de descontração, de ausência de tensão excessiva e de sensação de facilidade, aspetos que honram os princípios da boa equitação e que sublinham o respeito pelo cavalo e por uma correta técnica de treino. Dentro do grupo formado por cavalos lusitanos entre os 5 e os 9 anos de idade que eu conheço, não duvido que existem alguns cavalos capazes de chegar lá. Não será um grupo massivo, como questiona na sua pergunta, como também não o é nos Warmblood. Será sempre uma elite de cavalos que nasçam com a qualidade necessária, mas que também tenham a sorte de, no momento certo, encontrarem os “seus” cavaleiros:

Gonçalo Carvalho / Batuta

RA – Além da força mental, a força física é uma característica muito importante nos cavalos de Dressage, a par de uma qualidade de membros que permita a sua durabilidade em alta competição. Em que medida considera que em alta competição estes fatores são determinantes ou não, para o desenvolvimento da equitação de cavalos colaborantes, elásticos, finos e resistentes?

PC – Concordo absolutamente com a sua primeira afirmação. A força é um elemento fundamental para um cavalo de GP. O nível de energia a par do grau de reunião e do equilíbrio ascendente que é preciso manter durante toda a prova, exigem condições atléticas de primeira. Essas condições atléticas que têm de contar com o apoio de características de cariz psicológico, como a finura, a vontade de trabalhar e a generosidade, devem assentar numa estrutura morfológica robusta. Uma boa estrutura esquelética composta de ossos resistentes e firmes impulsionados por músculos fibrosos e com baixo teor de gordura é a meu ver uma prioridade da selecção. O que não se pode confundir são cavalos fortes, robustos e energéticos com cavalos grandes. O cavalo de sela deve ser ligeiro. Seja de que raça for. O seu tamanho deve estar relacionado, tão só, com o tamanho do seu cavaleiro de forma a dar o maior equilíbrio estético possível ao conjunto. Tenho visto ultimamente animais que pelo excessivo tamanho e volume saem totalmente dos parâmetros da raça e, no meu caso pessoal, do meu critério de escolha seja em que raça for.

Não correria o risco de, numa tentativa de procurar um cavalo só por ser grande, poder encontrar um “padeirão”. Não tenho nada contra cavalos grandes nem pequenos, desde que sejam leves, elásticos e enérgicos e que se destinem uns a cavaleiros altos e outros a cavaleiros de estatura mais pequena. Seguindo a sabedoria popular, também neste caso, será mais fácil encontrar a virtude no meio.

Quanto à fundamental resistência que se quer num cavalo de desporto, falo apenas pela minha experiencia, tanto no Lusitano como no Warmblood há linhas, que independentemente da qualidade de movimentos, têm mais tendência para lesões e claudicações. Nesses casos, há que ter cuidado com a genética, aliás, como na generalidade dos caracteres que nos interessam. O factor ambiental desde que nasce o cavalo até ao seu desbaste é também muito importante. A alimentação deve ser da melhor qualidade, porém, poder criar um cavalo até aos 3 anos em liberdade, com diversidade de condições climatéricas e de pisos trás um incremento da resistência física do cavalo no futuro.

Por último, abordo o cerne da questão: a relação entre morfologia – fenótipo, conformação óssea, muscular e aprumos- e andamentos. É evidente que toda a gente procura um cavalo com a melhor qualidade possível nos 3 andamentos. Porem, a moda, deturpa muitas vezes o essencial. Eu sou um “fanático admirador” do galope. Um cavalo que não tenha uma boa mecânica de galope, um bom equilíbrio, um tempo aéreo bem definido, vai multiplicar o seu esforço para poder ser ensinado. Dificilmente dará uma sensação de facilidade nos exercícios e será mais fácil contrair lesões a nível dos membros e do dorso. O trote, sobre o qual hoje parece existir uma obsessão, sendo obviamente, um andamento de grande importância para a obtenção de um swing belo, ritmado e elástico, não é tão determinante na saúde e na resistência futura do cavalo como o galope. No trote o essencial é a impulsão, elasticidade ou saída do chão, uma boa cobertura de terreno e um ritmo que permita um bom trote de trabalho como ferramenta essencial do ensino do cavalo. No passo o mais importante é a boa definição do movimento e a atividade, desde que, a sua amplitude cubra o terreno exigível em cada uma das suas versões. O ground covering excessivo pode não ser sinónimo de um passo ativo, com estabilidade e com uma boa capacidade para reunir.

Daí, não ser difícil encontrar cavalos que se sobre pistam muitíssimo no passo largo e que depois tem muita dificuldade em reduzir essa amplitude no passo médio e reunido, chegando a ambular descaradamente (tendência para lateralizar), perdendo atividade nestas tão importantes versões deste andamento.

Manuel Borba Veiga / Ben-Hur da Broa

RA – Quais as principais limitantes que podem justificar a insuficiência de talento num universo alargado de cavalos, para tão elevado grau de reunião como o que é exigido em GP?

PC – Meu caro Rodrigo, se tiver a sorte de me ter feito entender nas três respostas anteriores, julgo que a resposta a esta sua questão está dada. A exigência de um tema como este tão bonito como complexo é tremenda. Logo, só uma elite chegará ao topo. Em todas as raças de cavalos de sela e de desporto o crivo é semelhante quando salvaguardamos as devidas proporções determinadas pela proporcionalidade entre o número de éguas e de cavalos de nível internacional.

No caso da raça lusitana, acho admirável a evolução alcançada nos últimos 30 anos e acho injusto quando oiço pessoas dizer que afinal é quase impossível chegar às medalhas dos três grandes campeonatos internacionais. Há pessoas que se esquecem que há 30 anos era difícil achar um cavalo em Grande Prémio, há 25 anos a meta era fazer mínimos para competir lá fora 61%, há 20 anos quando se alcançava os 64% que permitia integrar a equipa era uma Festa. Entretanto apareceram a nível internacional resultados de 70% obtidos por animais como o Guizo, a Oxalis e o Util, o Xiripiti,  o Ben-Hur e outros.  O ‘rei’ Rubi alcançou mais do que a fase final dos JO de Londres, atingiu um estatuto de estrela internacional da modalidade e um lugar nos sonhos de todo o cavaleiro que admira a “ difícil facilidade”, a arte e anseia montar um cavalo com a classe do rassembler deste Alter. Julgo que é importante render homenagem a quem tanto trabalhou para alcançar estas metas, gerir as expectativas com bom senso e continuar a trabalhar com motivação e entusiasmo e continuo a acreditar nas palavras que me atribuiu no início desta entrevista:

“a raça desenvolveu-se, e ainda bem, muito mais depressa que os regulamentos e as estruturas que a tutelam”.

Enquanto assim for, é sinal que o talento e a vontade não esmoreceram, mas também é sinal que os gabinetes continuam a não conseguir acompanhar a dinâmica de quem trabalha no campo, nos picadeiros e nas pistas de competição.

Ficaria mais preocupado se fosse ao contrário.

2015.12.01

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