José Tanganho, herói do Circuito Hípico de Portugal em 1925

José Tanganho, herói do Circuito Hípico de Portugal em 1925

José Tanganho / Favorito

O Circuito Hípico de Portugal foi a primeira grande Volta organizada no país e prendeu os portugueses aos caminhos e aos jornais durante 18 etapas e 24 dias. A história do homem modesto e desconhecido que ganhou aos militares e virou herói nacional foi cheia de peripécias, a última das quais uma grande bebedeira do cavalo Favorito que quase custou a vitória com a meta à vista.

A memória colectiva já pouco recorda o feito quase centenário de José Tanganho, em Outubro de 1925, mas a vitória levou este caldense, então um ilustre desconhecido, para a ribalta do desporto nacional.

O Circuito Hípico de Portugal, conhecido como a primeira – e única – Volta a Portugal a cavalo, foi uma iniciativa do Diário de Notícias. A prova arrancou em Lisboa a 10 de Outubro, do antigo Jockey Club. À partida estavam 39 cavaleiros, dos quais apenas três eram civis. Os restantes eram militares, mal-amados à época pelo clima de revoluções e golpes de estado que se vivia. Do Minho ao Algarve, houve multidões a acompanhar. Abriu caminho à Volta a Portugal em bicicleta, dois anos mais tarde.

José Tanganho partiu na frente, primeiro em dupla com Germano Rodrigues, um bombarralense que era outro dos civis a concurso. Chegaram a Faro, quatro dias depois da partida de Lisboa. Depois o caldense ficou sozinho e disputou a liderança com dois militares, o tenente Brandão de Brito e o capitão Rogério Tavares, vencendo muitas etapas.

Tanganho representava, para o povo, a “luta” entre um civil de poucos recursos e militares dotados das suas cartas, numa época em que as estradas mal existiam, sobretudo nas terras do interior. Havia ainda a questão da diferença de meios e estatuto. Os militares transportavam consigo armas, para se defenderem de assaltos e abaterem os cavalos caso ferimentos assim o exigissem. Um dos episódios marcantes decorreu em Chaves, onde a empresa das Águas das Pedras Salgadas ofereceu dormida aos militares na estância termal, enquanto José Tanganho pernoitou no estábulo, com o seu cavalo.

A forma como tratava o seu cavalo era outro factor que favorecia a sua popularidade. O caldense dividia fases a cavalgar com outras apeadas, para poupar Favorito. O cavaleiro chegou a dizer que gastou três pares de botas durante os 1148 quilómetros de prova.

No Norte Tanganho e Favorito perderam a liderança, com vários contratempos e quatro mudanças de ferraduras. No entanto, até Coimbra José Tanganho e Favorito fazem um enorme esforço e assumem a liderança com uma vantagem de quatro horas.

ENTUSIASMO QUASE DEITOU TUDO A PERDER

A prova encaminhava-se para o fim e o entusiasmo quase deitava tudo a perder. As recepções em grande ambiente de festa começaram em Alcobaça e prolongaram-se pelas Caldas, Santarém e Cartaxo. As festas atrasaram o conjunto e diminuíram a liderança. Brandão Tavares estava empenhado em vencer e terá mesmo jurado ultrapassar um Tanganho desconcentrado pelos festejos.

Mas o pior aconteceu no Cartaxo. O comerciante António Rocha, proprietário do Favorito, deu uma grande festa à chegada de José Tanganho e ofereceu todo o champanhe que havia na vila. Tanganho perdeu mais tempo do que o suposto.

O capitão Rogério Tavares e o seu cavalo Emir assumiram a liderança a escassos 100 quilómetros de Lisboa. O grande problema foi o cansaço de Favorito, que um popular aconselhou a “curar” com sopas de cavalo cansado feitas com Vinho do Porto. O equídeo apanhou uma grande bebedeira e José Tanganho teve que fazer a parte final a pé.

O capitão Rogério Tavares chegou primeiro a Lisboa, recebido pelo povo em silêncio. José Tanganho surgiu duas horas depois, com o cavalo pela rédea, recebido em grande euforia. As hipóteses de José Tanganho e Favorito vencerem as probabilidades e erguerem o troféu do primeiro lugar eram, no entanto, reduzidas.

Porém, a prova não estava ainda terminada. No derradeiro dia havia uma prova de saltos para disputar e Rogério Tavares pagou o preço do esforço que exigiu ao seu cavalo para tirar a liderança a Tanganho. Nessa noite, o seu cavalo Emir morreu de exaustão, aumentando para 10 as baixas entre os equídeos nesta prova. Sem cavalo, o militar não pôde competir e José Tanganho saiu vitorioso na prova.

O Circuito Hípico provou que o conceito era bem aceite pelo povo e, dois anos mais tarde, o DN voltou a organizá-la, mas de bicicleta, criando aquele que é, ainda hoje, uma das competições desportivas mais populares no país.

Das origens modestas a verdadeiro herói nacional

Quando, aos 32 anos de idade, José Tanganho venceu o Circuito Hípico de Portugal, José Tanganho já era um homem do meio tauromáquico e dos cavalos, mas as suas origens são de uma família modesta, conta Mário Lino no seu livro “José Tanganho na Volta a Portugal”.

Enquanto jovem, cresceu no meio equestre. O pai tinha um negócio de trens e galeras. Na altura em que concorreu à prova, trabalhava Vitorino Fróis.

Terá sido este ilustre do mundo equestre que o aconselhou no treino da montada, que decorreu na Foz do Arelho. Para que o seu cavalo ganhasse “pulmão”, Tanganho atava o cavalo a uma bateira e ia remar para a lagoa, obrigando Favorito a nadar. E para alargar a musculatura, o conjunto cavalgava na areia. O treino foi sempre feito entre os dois, de modo a criar a importante relação de confiança entre cavaleiro e montada.

Após a vitória brilhante, José Tanganho continuou a ser uma grande figura equestre em Portugal. Foi contratado para actuar nas principais salas do país. E tirou a alternativa como cavaleiro tauromáquico. Ainda segundo o livro de Mário Lino, as arenas lotavam quando José Tanganho fazia parte do cartaz, nem tanto pelas suas artes do toureio, mas porque todos queriam ver o civil que derrotou os militares naquele ano de 1925.

Fonte: Joel Ribeiro (Gazeta das Caldas)

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