Cavalos conseguem ler expressões faciais nos humanos

Cavalos conseguem ler expressões faciais nos humanos

Texto: Dr. Henrique Cruz |

Desde os primeiros cavalos a ser domesticados há cerca de 5 mil anos, os humanos sempre viveram e trabalharam com cavalos. Toda a civilização e evolução da espécie humana não teria sido possível sem a preciosa ajuda dos equinos. Referimos como exemplo o lavrar da terra, o transporte com carruagens, a cavalaria nas batalhas e o envio de mensagens (de amor ou de conteúdo militar) ao longo de longas distâncias de outra forma inalcançáveis.

Apesar do binómio predador inteligente contra presa de meia tonelada, os humanos e os equinos conseguiram comunicar transpondo a barreira da diferença de espécie, através de uma linguagem comum que é a emoção. Cavaleiros e treinadores experientes conseguem detectar alterações subtis no estado emocional dos seus cavalos através de ensinamentos transmitidos de geração para geração e também através de sensações e experiências adquiridas ao longo de uma vida à volta destes grandiosos animais que são os cavalos. Um ligeiro movimento das orelhas, o abanar a cauda de um modo irritado ou um olhar desconfiado, são exemplos de sinais de linguagem corporal nos equinos.

Os cavalos também conseguem ler as emoções nos humanos, com uma precisão surpreendente, alertando-nos para um estado de nervosismo ou tristeza, por vezes mesmo antes de nós nos apercebermos disso. Tal como escreveu Herman Melville na sua obra REDBURN, “Nenhum filósofo nos compreende tão bem como os cães ou os cavalos”.

O cavalo doméstico dos nossos dias, Equus caballus, é uma versão mais mansa e afinada dos animais peludos, agressivos e roncadores que percorriam as planícies na idade do gelo; foi criado selectivamente ao longo de gerações pela agilidade e temperamento dócil para os humanos. No entanto, a capacidade de os cavalos formarem relações sociais complexas provem de um legado evolutivo mais antigo, em que estes animais viviam unidos em bandos com cerca de 5 a 10 indivíduos. Garanhões, poldros e éguas, matriarcas observadoras apesar dos corpos musculados dos machos com relincho ameaçador, todos formavam relações emocionais profundas. Hoje em dia os humanos fazem parte desta interação. Os cavalos domésticos respondem à mais ligeira alteração no tom de voz, sensibilidade do toque, ou rigidez do corpo do cavaleiro.

Foto (c) Paula da Silva

A habilidade dos equinos lerem as emoções dos humanos através dos sons e toque é muito particular. No entanto, os cavalos também conseguem ler as expressões faciais dos humanos, segundo um estudo inédito publicado recentemente. Esta sofisticada capacidade já tinha sido previamente demonstrada nos cães. Até muito recentemente, pensava-se que os cavalos tinham uma visão muito primitiva. Os cavalos não distinguem as cores e não conseguem ver imediatamente à sua frente devido aos olhos estarem posicionados de lado na cabeça. Contudo, têm uma acuidade visual superior à do cão ou do gato doméstico.

Uma equipa de investigadores da universidade de Sussex, Reino Unido, liderada por Amy Smith e com a colaboração da veterana em comportamento animal Karen McComb, utilizou um grupo de 28 cavalos. Foi-lhes mostrada uma fotografia da cara de um homem com uma emoção facial positiva (sorriso) ou com uma emoção facial negativa (zangado). Os resultados demonstraram que os cavalos conseguiam distinguir automaticamente entre as duas expressões e os respectivos significados.

Os cavalos olhavam mais para as caras zangadas com o olho esquerdo, activando a parte do cérebro (hemisfério direito) onde se processam os estímulos provocadores de medo. Esta resposta também está bem documentada nos cães. A frequência cardíaca dos cavalos também aumentou mais rapidamente quando foram confrontados com a cara zangada. A capacidade de distinguir um sorriso duma cara zangada é um atributo útil para um cavalo doméstico pois raramente este encontro resulta em consequência feliz.

Os autores do estudo especularam que os cavalos poderiam estar simplesmente a aplicar a capacidade ancestral de ler as expressões faciais da sua própria espécie a uma espécie morfologicamente diferente, neste caso a humana. Este grupo de investigadores já tinha previamente identificado 17 expressões faciais distintas nos cavalos (mais uma que nos cães, ou mais 3 que nos chimpanzés) muitas das quais semelhantes aos 27 movimentos faciais descritos nos humanos como encorrilhar as sobrancelhas ou olhos muito abertos frente ao medo.
Uma vez que os cavalos utilizados neste estudo provinham todos de escolas de equitação onde interagiam diariamente com humanos, a capacidade de ler as expressões faciais também pode ter sido adquirida ao longo da vida. Estudos prévios demonstraram que a familiaridade era um factor significativo na capacidade de o cão reconhecer as expressões faciais – os cães tiveram um melhor desempenho a reconhecer as expressões faciais nos donos em comparação com estranhos.

Apesar dos resultados deste estudo talvez não serem surpresa para pessoas que trabalham diariamente com cavalos, são mais uma peça importante no grande complexo da linguagem emocional que os humanos partilham com outras espécies. A capacidade de os cavalos interpretarem expressões faciais provavelmente ajuda a explicar o importante papel que os equinos desempenham nas terapias e efeitos emocionais nos humanos, documentados na arte e história, desde os primeiros registos nas paredes das cavernas.

Podem falar através de suspiros ruidosos ou discretas torções dos lábios em vez de palavras, mas está a tornar-se claro que os cavalos são indivíduos com uma forte acuidade emocional – não muito diferentes dos animais que carregam no seu dorso.

 

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