A origem misteriosa dos cavalos domésticos pode ter sido revelada

A origem misteriosa dos cavalos domésticos pode ter sido revelada

Foto (c) Michelle Rosa Santos

Há cerca de 4.200 anos, montar a cavalo permitiu às pessoas viajar para mais longe e mais depressa do que nunca, estimulando a migração pela Europa e Ásia.

Durante milhares de anos, os cavalos desempenharam um papel vital nas sociedades humanas de todo o mundo. Estes equinos ajudaram os primeiros agricultores a arar os seus campos, a transportar pessoas para mais longe e mais depressa, e deram aos guerreiros uma vantagem em batalha. Mas as origens dos cavalos domésticos há muito que intrigam os especialistas.

Foi necessária uma colaboração entre dois continentes e mais de cem cientistas para encontrar a resposta: sul da Rússia.

Esta descoberta fornece fortes evidências de que, entre os três principais locais em disputa – Anatólia, Península Ibérica e estepes da Eurásia ocidental – este último é provavelmente o local de nascimento dos cavalos domésticos da atualidade, o Equus caballus.

O líder do estudo, Ludovic Orlando, arqueólogo molecular da Universidade Paul Sabatier em Toulouse, França, e os seus colegas reconstruíram genomas de cavalos da antiguidade a partir de esqueletos de cavalos encontrados em locais que vão desde Portugal até à Mongólia.

Uma região no sul da Rússia, perto da interseção dos rios Volga e Don, destacou-se de todas as outras. Esta região de criação de gado já tinha evidências arqueológicas indiretas da domesticação de cavalos, mas as novas análises de ADN mostram que os cavalos domésticos da atualidade podem ser rastreados até aos equinos que viveram nesta região há cerca de 4.700 a 4.200 anos.

Como as pessoas na região de Volga-Don criavam cavalos para domesticação e rapidamente começaram a migrar para novos lugares com os cavalos, esta nova linhagem de cavalos rapidamente se espalhou da Europa Ocidental para a Ásia Oriental e mais além.

“A migração foi praticamente repentina”, diz Ludovic Orlando, cujo estudo foi publicado no dia 20 de outubro na revista Nature. “Não foi uma coisa que se consolidou ao longo de milhares de anos.”

“À medida que estes cavalos se foram expandindo, foram substituindo todas as linhagens anteriores que vagueavam pela Eurásia”, diz Ludovic Orlando. O cavalo doméstico que conhecemos hoje “é o vencedor, aquele que vemos em todo o lado, e os outros são uma espécie de perdedores”.

Para além disso, montar a cavalo e as carroças de guerra puxadas por cavalos, que já eram comuns algumas centenas de anos após a domesticação dos equinos, mudaram a dinâmica de poder entre as sociedades e provavelmente estimularam ainda mais a disseminação desta espécie de cavalo.

Projetar um cavalo melhor
Na Idade do Bronze, na Europa e Ásia, há cerca de 5.000 a 4.200 anos, as pessoas provavelmente já estavam a domesticar cavalos. O Equus caballus evoluiu de pequenos animais parecidos com cavalos que percorriam as pastagens norte-americanas já na época do Eoceno (que começou há cerca de 56 milhões de anos) e cruzaram a ponte de terra de Bering durante a última idade do gelo.

Os registos históricos e arqueológicos sugerem que, de repente, há cerca de 4.200 anos, as populações de cavalos começaram misteriosamente a aumentar pela Eurásia. Será que foram as alterações climáticas a expandir as pastagens e a proporcionar mais habitat para os cavalos? Será que as pessoas pelo mundo inteiro já estavam a criar linhagens de cavalos? Ou será que os cavalos domesticados partilham uma origem comum?

Só na última década é que a tecnologia para testar ADN antigo de materiais preservados, como ossos e cabelos, se tornou apurada o suficiente para investigar estas questões mais amplas.

Para a sua investigação, Ludovic Orlando e uma equipa internacional de colecionadores de ossos vasculharam museus e sítios arqueológicos, reunindo material suficiente para testar 273 genomas individuais de restos mortais de cavalos encontrados por toda a Europa e Ásia Central. Ao comparar a composição geral dos genomas ao longo do tempo e do espaço, os investigadores conseguiram mapear quando e onde é que a diversidade genética dos cavalos evoluiu.

O mapeamento genético revelou uma enorme diversidade entre os cavalos domesticados há cerca de 5.000 anos, diversidade que rapidamente diminuiu quando os humanos começaram a criar animais seletivamente para terem mais resistência, serem mais dóceis e com capacidade de suportar o peso humano – criando ajustes genéticos que levaram ao cavalo que conhecemos atualmente.

“O estudo fornece finalmente as evidências genéticas dos cavalos que viveram naquele [período] relevante e na região correta”, diz Vera Warmuth, bióloga da Universidade Ludwig-Maximillans de Munique, na Alemanha, cujos modelos de investigação identificaram há mais de uma década a região de Volga-Don como sendo a potencial fonte para a domesticação de cavalos.

“O nosso próprio trabalho previa uma rápida disseminação a partir daquela área, e é isso que este estudo também sugere”, escreve Vera Warmuth por email.

Uma história partilhada
As comunidades por toda a Eurásia já estavam familiarizadas com cavalos e podem ter acelerado a expansão do cavalo de Volga-Don, diz Kate Kanne, arqueóloga da Universidade de Exeter, no Reino Unido, que não participou no estudo.

“Creio que foi algo que aconteceu depressa porque as infraestruturas já estavam instaladas e pelo menos algumas das pessoas já tinham conhecimentos sobre a criação de cavalos”, diz Kate Kanne.

Conforme os cavalos domesticados se começaram a propagar, logo a seguir à Idade do Bronze, os humanos começaram a viajar distâncias mais longas do que nunca, levando ao aumento do comércio e da transferência de conhecimento entre as sociedades, bem como a uma maior mobilidade. E quando as pessoas mudavam de lugar, levavam os seus cavalos consigo, diz Ludovic Orlando.

“Foi a primeira experiência de globalização. O mundo ficou mais pequeno, simplesmente porque tínhamos cavalos.”

Por exemplo, algumas das primeiras evidências da domesticação de cavalos vêm da cultura Sintashta da Idade do Bronze no sul da Rússia, onde a descoberta de restos mortais de cavalos, juntamente com rodas antigas, sugere a importância que os equinos tinham enquanto meio de transporte. O momento da evolução do genoma humano em partes da Eurásia também é muito semelhante ao dos cavalos.

“A história dos humanos está envolta no ADN dos cavalos”, diz Kate Kanne. A relação entre as pessoas e os seus cavalos é “realmente interessante para mim… porque conta a história de ambas as nossas espécies através do ADN”.

Por Rebecca Dzombak
Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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