O negligenciado pescoço equino

O negligenciado pescoço equino

Por Dr. Carlos Rosa Santos

Para os especialistas, uma das primeiras impressões quando se observa o cavalo é a conformação da cabeça e pescoço, apreciando-se como este sai das espáduas e a inserção entre ganachas.Em corridas de cavalos muitas vezes ganha-se por uma cabeça ou um pescoço e nos saltos de obstáculos a sua posição e consequentemente a das espáduas pode fazer a diferença entre um ou dois toques e um percurso limpo. No entanto, durante a sua vida desportiva nenhuma zona do cavalo é tão negligenciada. É a área vermelha, as palavras do costume são as mais utilizadas, como bem ou mal colocado, hirto, descair nesta ou naquela espádua o que muitas vezes resulta da observação óbvia das consequências de problemas no pescoço.

A origem dos mesmos, essa, muitas vezes nem é entendida.

Suspeita-se quase sempre de problemas nos membros utilizando-se frequentemente a bateria de exames complementares de diagnóstico, quase sempre sem resultados realísticos.Tentaremos com a exactidão possível tocar nos pontos anatómicos do pescoço cuja funcionalidade muito contribui para um movimento livre e harmonioso do equino, suas lesões e terapia adequada de maneira a que o cavalo possa ter um pescoço forte e um futuro atlético.

O pescoço equino é uma estrutura complexa na qual mais de uma centena de músculos apoiam sete grandes vértebras. A muito sensível medula espinal e os nervos periféricos intersectam as vértebras cervicais, seguindo estes para os membros anteriores.

O pescoço do cavalo consegue estender-se bastante mais do que os da maioria dos herbívoros. As sete vértebras cervicais estão ligadas entre si e formam a figura de um “S”. As duas primeiras, o Axis e o Atlas suportam e movem a cabeça. As outras cinco são das mais longas da coluna vertebral.

O pescoço do cavalo posiciona-se de uma forma mais vertical do que os outros herbívoros o que requere um grande suporte muscular, de facto muita massa muscular, constituindo cerca de 6% da massa total do cavalo.

Na dissecção do pescoço encontramos um conjunto de pequenos músculos, chamados axiais, que envolvem as vértebras e as estabilizam solidamente. Existem também alguns músculos longos que permitem que este se mova lateralmente. Proporcionam também na coluna, uma absorção de choque muito satisfatória. No pescoço localizam-se a traqueia, o esófago, a veia jugular, a artéria carótida, muitos ligamentos e tendões e tecido cartilagíneo, além de como já mencionamos, a medula espinal.

A principal preocupação é sem dúvida a possível compressão da medula espinal. Esta compressão e problemas congénitos, malformações, lesões que fracturam ou remodelam o osso, doença degenerativa articular ou uma combinação das cinco situações são os problemas mais comuns.O sintoma mais preocupante é a ataxia ou falta de coordenação dos movimentos acompanhada de falta de força muscular, hipersensibilidade da pele e a não consciência de movimentos do corpo ou da própria postura o que faz que quando se movem pareçam alcoolizados, o que inutiliza o cavalo. Mais difícil de detectar são as sensações de “formigueiro”. Um nervo comprimido no pescoço pode causar claudicações nos membros anteriores sem existir dôr ao nível do pescoço. É quando chega a bateria de radiografias nos membros, com resultados sempre inconclusivos, como é óbvio. Dores especialmente devido a lesões traumáticas na espádua e quedas contorcionais em C.C.E. causam más performances e claudicações, sendo difícil, mas possível, determinar a sua origem no pescoço.Outros problemas muito comuns, especialmente em cavalos mais velhos é a osteoartrite que ocorre nas vértebras cervicais. As cartilagens das mesmas estão danificadas, o líquido sinovial alterado, há espessamento da cápsula articular e o controle muscular no pescoço não é eficiente. Os nervos axiais que são essenciais para a função do pescoço e que afectam os músculos estabilizadores do pescoço ficam inflamados e muito doridos, fazendo da artrite cervical um ciclo vicioso de inflamação, dôr e disfunção.

Quando isto ocorre, os músculos longos do pescoço tentam estabilizá-lo e contraem-se durante o trabalho causando uma deficiência na flexão e rotação do pescoço, ficando este hirto.

Os músculos do pescoço muitas vezes sofrem lesões traumáticas que podem ser de curta duração e que são normalmente resolvidas com medicação e/ou fisioterapia adequada. Porém, mesmo quando a dôr é controlada, os músculos estabilizadores não voltam automaticamente à sua função normal. A consequente falta de estabilidade entre vértebras adjacentes faz com que surjam outras alterações degenerativas articulares.Na maioria dos casos acidentais com componente traumática que observamos na clínica diária encontramos normalmente danos ao nível dos tecidos moles e que podem ser tratados com analgésicos, fisioterapia e repouso. Alguns problemas ao nível do pescoço estão fora do nosso controle, porém há uma ligação importante entre a maneira como se trabalha os cavalos montados ou à guia e o evitar problemas relacionados com o pescoço. A chave está na manutenção da flexibilidade e na colocação do pescoço. Cabeça no ar e pescoço invertido ou muito tenso faz com que o dorso não arredonde e esteja tenso. Porém, montar o cavalo com o contacto de dressage normal o que supostamente seria bom para os tecidos moles (músculos, ligamentos e tendões), pode provocar um afunilamento do canal vertebral e dos foramens vertebrais o que aumenta o risco de compressão vertebral.Um cavalo que tenha sofrido uma lesão no pescoço ou sofra de dor ou de rigidez causada por artrite ou por má técnica do cavaleiro beneficiará de uma fisioterapia apropriada e de equitação equilibrada. Um pouco de tudo será o ideal, com alterações no trabalho de dez em dez minutos, desde deixar estender o pescoço e alternar com períodos de maior concentração, flexões à esquerda e à direita.

Sempre que o cavaleiro encontra uma resistência deve lembrar-se que os exercícios mais violentos vão piorar a situação e que a mudança de ferro e de rédeas complementares quase sempre é prejudicial.

A finura e a sensibilidade do cavaleiro são essenciais para não submeter o cavalo a “trabalhos forçados” que, no caso de lesões no pescoço só vão piorar a situação.Problemas como os que mencionamos atrás não devem ser alvo de tentativas de manipulação por pessoas não qualificadas.Há vários exercícios que são importantes tal como nos atletas humanos mas devem ser efectuados por especialistas na matéria, os quais não abundam.

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