O Lusitano e o seu futuro desportivo

O Lusitano e o seu futuro desportivo

Foi obviamente lento o despertar da raça lusitana, dos seus criadores e cavaleiros, para a realidade da equitação de desporto.

 

Durante muitos anos, cativo da vertente tauromáquica, o lusitano era aí que encontrava, e encontra ainda, a singular expressão das suas múltiplas qualidades como cavalo de sela.

Ouvi há tempos um amigo dizer que um bom cavalo de toureio seria um bom cavalo para tudo, por “tudo” entenda-se qualquer disciplina equestre.

A expressão terá, admitamo-lo, o seu quê de exagero, mas ela revela, afinal, o modo como e onde o Lusitano se exprimiu de modo tão brilhante e por onde começou a granjear fama.

Contudo, os tempos mudam de forma célere e com a mesma celeridade novas realidades se foram apresentando.

A tauromaquia, como forma de expressão do ser “luso” mantém-se pois absolutamente pujante e a cativar audiências (ainda que atacada por alguns que persistem, de modo inconsistente, em pretender aprofundar uma visão maniqueísta do mundo, oposta à daqueles que defendem a cultura, a tradição, o campo, o cavalo, o toiro, enfim…)

Mas não nos dispersemos no acessório.

O Lusitano encontrou hoje, por via de determinados exemplos, novos mercados. Foram já vários os cavalos da raça que chegaram a um nível elevado nas pistas internacionais e outros perfilham-se.

O sucesso, esse, advém como se sabe da criação e do método seletivo.

É aqui, de um modo que se pretende o mais rigoroso possível, científico até, pese embora o facto de não estarmos obviamente perante uma ciência exacta, que radica a chave do sucesso na criação de um lusitano desportivo, performante e poderoso e expressivo, marca indelével da raça.

Pessoalmente não me impressionam particularmente os cavalos apresentados aos 3anos, com mãos esbracejantes no trote, para onde tanto se olha, quando depois as pernas ficam para trás e o passo não revela a amplitude transpistada que é obviamente desejável, porque depois, com cargas de 80 kg e mais, aquilo que parecia extraordinário rapidamente, por falta de força, se revela sofrível. Até aos três anos o modelo é certamente de apreciar, e julgar. No que aos andamentos diz respeito essa é uma vertente, que pensamos, só o futuro se encarregará de confirmar.

Uma atenção fundamental deverá obviamente ser também prestada às éguas e à sua qualidade de andamentos, em particular montadas.

É no breeding value das éguas, ou seja, na capacidade de gerarem indivíduos qualitativamente superiores a elas próprias, que reside também a capital importância da criação.

O lusitano tem pois o destino traçado e esse, ainda que assente na residual tauromaquia, passa pelas pistas de dressage e pelos palcos internacionais cujas portas foram sendo abertas nos últimos anos por lusitanos de mérito, relembrando-se Guizo, Galopin de la Font e outros.


Não podíamos, neste particular, deixar de dar ênfase e render a justa e devida homenagem ao Alter Real Rubi, ao seu cavaleiro Gonçalo Carvalho, à sua proprietária, Christine Jacoberger, e à demais equipa.

Portugal é, demasiadas vezes, o país dos projectos, políticos, futebolísticos, e também equestres, demasiadamente inconsequentes e de estrutura e fins duvidosos.

O Team Rubi, projecto agregador, veio demonstrar que afinal é possível o sucesso quando alguns narrow minded nele só viam o fracasso e a desgraça, esses invejosos incapazes que destilam, aqui ou ali, os exemplos vivos da sua própria incapacidade.

O sucesso do Team Rubi surpassou em muito a sua pontuação na prova final, trouxe o Lusitano para a ribalta e para um patamar de paridade com os warmbloods (ainda não absoluta) mas que por direito próprio lhe pertence.


Outros cavaleiros saberão certamente trilhar o caminho aberto pelo Rubi AR, sendo que também no Team PCI, Paulo Caetano International, novos valores se levantam, com Rodrigo Torres e Maria Moura Caetano, que, montando cavalos ainda jovens, Zimbro e Xiripiti, ferro Torres Vaz Freire, são já o sinal evidente de um futuro desportivo que a raça necessita, sem querermos perpetrar a injustiça de não referir outros nomes, que os há.

Tudo isto, a par de um novo olhar dos juízes, cada vez mais aberto para as virtudes do cavalo ibérico, constitui sem dúvida o cocktail necessário de um sucesso que se pretende sério e duradouro.

As novas infraestruturas na Golegã, o Centro de Altos Rendimento de Desportos Equestres, e a Academia de Dressage de Daniel Pinto não deixarão de constituir um veículo importante na afirmação desportiva do lusitano, assim os apoios apareçam e apareça também a consciência de que passaremos a estar num mercado de enorme potencial económico que a todos, certamente, beneficiará.

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