Francisco Cancella de Abreu acredita que a Batuta chegará aos 80%

Francisco Cancella de Abreu acredita que a Batuta chegará aos 80%

 

Fizemos uma curta entrevista onde são focados alguns dos pontos que marcam a atualidade da Dressage, e que seguramente vão ao encontro do interesse de todos aqueles que acompanham a modalidade.

RA – É inquestionável que a Batuta é no presente momento o animal da raça Lusitana na disciplina de dressage com melhores resultados ao nível Internacional. Na sua opinião existirá potencial trabalhável para esta égua poder atingir a fasquia dos 80%, conforme acredita Gonçalo Carvalho? Onde poderá o conjunto ir buscar mais pontos?

FCA – Acredito que a Batuta chegue aos 80% já em 2016, para isso só necessita melhorar a constância e a elasticidade do contacto, o seu problema desde os 3 anos de idade. Portanto o grande investimento a fazer até aos Jogos Olímpicos será um trabalho no sentido de estabilizar a silhueta. Creio ser mais importante que competir muito. Só um contacto completo (suave, elástico e constante) trará o necessário bem-estar à égua para que possa entregar-se num galope mais amplo. Se para além disso, o cavaleiro melhorar a técnica nas piruetas, estão garantidos os 80%.

RA – Qual a sua leitura, em termos da presente qualidade na criação de cavalos para a disciplina de Dressage?

FCA – Internacionalmente tem havido uma aposta acertada para o melhoramento do cavalo de Dressage e de completo, melhoramento esse que antes esteva limitado ao cavalo de obstáculos. Acompanho diariamente a modalidade desde os JO de Munique em 1972, e creio que atualmente só o medalha de ouro (Piaff) seria classificável nos 10 primeiros. Não foi só os cavalos que evoluíram no sentido de mais expressão e qualidade nos andamentos reunidos (Totilas). A equitação tem também evoluído espetacularmente. Em Portugal há alguns criadores que já perceberam o nível de exigência da modalidade e fazem um elevado esforço na atualização das suas eguadas e respetiva produção. Mas falta ainda muito para que apareçam vários cavalos por ano com futuro a nível internacional.

RA – Em que termos concorda com a máxima de criação de cavalos do Dr. Max Schulz Stellenfleth? “For building the generations, I only use daughters of stallions, the children of which are successful in the sport”.

FCA – É uma máxima muito válida de um criador com uma certa idade e que ao longo dos anos deu provas ao criar seis dos mais importantes garanhões hanoverianos licenciados (Ex. Brentano II; Wolkenstein II; etc.). O Dr. Max Schulz tem toda a razão, pois as éguas são o pilar da criação. É burrice e perda de tempo usar animais não testados, eu acrescentaria ainda, porque está cientificamente provado, que quando aparecem garanhões que realmente marcam a descendência, sendo bons desportivamente, eles são filhos de éguas excecionais de cada raça, as matriarcas superiores.

RA – O LW (Luso-Warmblood) está a motivar um renovado interesse de mercado, com um volume de negócio de elevada nota. Muitos criadores (Vasco Freire; Jorge Ortigão Costa; Pedro Ferraz da Costa; Sylvain Massa; Paulo Vidigal; etc.), compradores, e utilizadores (Pablo Hermoso de Mendoza; Daniel Pinto; etc.), estão mobilizados para este tipo de animais. Na sua opinião estes cruzamentos podem vir ao encontra da resposta a algumas das limitações físicas e anímicas do Lusitano?

FCA – No fabrico de cavalos de dressage reconheço que os garanhões warmblood que hoje se usam, são infinitamente mais atletas, para além de serem testados e contrastados para a modalidade. Seria óbvio que assim rapidamente se melhorassem os descendentes das esposas lusitanas que entram no casamento para dar talento!!!. Contudo, na minha estatística ainda nenhum cruzado superou os melhores PSL no nível GP. Todos são realmente mais poderosos, mas nem todos são mais amplos e elásticos, alguns mesmo têm uma montabilidade vulgar, próxima da que se conseguia com o anglo luso. Para ser ainda mais rápido na obtenção de resultados, creio que geneticamente faz mais sentido a situação oposta, um excelente garanhão lusitano com uma égua testada warmblood. De qualquer modo continuo a acreditar, porque temos já alguns exemplos, que o lusitano PURO, quando selecionado rigorosamente numa perspetiva desportiva (sem folclore sentimental) pode bater-se ao mais alto nível de igual para igual, para já em atrelagem e dressage.

Dentro de alguns anos outras modalidades FEI virão. Entretanto continuará a reinar intocável em toureio e equitação de trabalho. Creio acima de tudo que é urgente avaliar TESTANDO a real qualidade das esposas lusitanas que se usam, porque também na minha estatística mais de 80% das éguas não são melhoradoras.

Gonçalo Carvalho / Batuta – G.P. Freestyle – Odense (Foto: ©Sanne Kolind)

 

Categorias: Actualidade, Artigos