Era uma vez um cavalo de corrida chamado «Filho da Puta»

Era uma vez um cavalo de corrida chamado «Filho da Puta»

"Filho da Puta", pintura a óleo de John Fredericks (GBR)

Amor, traição e um cavalo: a história de Filho da Puta – assim mesmo, em português -, o puro-sangue inglês que há 200 anos arrumou as ferraduras, depois de uma carreira brilhante nas corridas de Inglaterra

Primeiro, o amor. Depois, o ódio. Sir William Barnet fazia criação de cavalos puro-sangue inglês para competição. Em 1806, fruto do cruzamento entre dois cavalos de genética superior, nasce uma poldra que Barnet nomeia após a sua esposa, como forma de a homenagear. Quando completa dois anos de idade, Mrs Barnet (a poldra) inicia os treinos para se tornar um animal de corrida. Mas as expectativas não corresponderam à realidade: Mrs Barnet não se mostrava tão rápida ou resistente quanto prometia ser.

Face ao fracasso, Mrs Barnet (a égua) é afastada das corridas e mantida na coudelaria do seu dono. Completados cinco anos de idade, acasala com o garanhão Haphazard, outro cavalo de competição, e um ano depois nasce o poldro que se viria a tornar um marco nas corridas de cavalos britânicas pelas suas vitórias, pelos seus descendentes e principalmente pelo seu nome – Filho da Puta, assim mesmo, em português de Portugal.

Mas porquê o caricato nome? Segundo reza a história, a esposa de William Barnet tinha um amante, um oficial da marinha britânica, e fugiu com ele na mesma altura em que o Filho da Puta (o poldro) nasceu. Barnet tinha passado parte da sua vida em Portugal e, como tal, era familiarizado com a língua portuguesa. Como última homenagem à esposa, Barnet registou o poldro “Filho da Puta”, o puro-sangue inglês castanho, nascido a 1812 e filho da égua Mrs Barnet e do garanhão Haphazard.

Durante a sua carreira, Filho da Puta foi descrito como um “cavalo notavelmente bom e poderoso” e das 12 corridas em que participou obteve a vitória em 9, tendo ganho provas emblemáticas, como as St. Leger Stakes e a Donscaster Gold Cup. Sofreu uma derrota pela primeira vez em 1816, segundo a publicação desportiva australiana The Sportsman. Foi comprado por Sir William Maxwell com menos de 1 ano de idade e, mais tarde, foi adquirido por T. Houldsworth (tal como aparece no registo). Em 1817, Filho da Puta sofreu um ferimento numa pata que impossibilitou a sua participação em qualquer corrida nesse ano. No ano seguinte, correu pela última vez, tendo sido derrotado pelo oponente Cerberus, numa corrida de duas milhas (cerca de 3,21 quilómetros), e foi finalmente reformado e utilizado exclusivamente para reprodução.

Durante a reforma, Filho da Puta foi premiado com o título de melhor progenitor da Grã-Bretanha e da Irlanda em 1828, que é o título atribuído aos garanhões cujos descendentes ganham o maior número de provas e prémios monetários durante determinada época de competição. O seu filho Birmingham ganhou inclusive a prova a St. Leger Stakes – considerada por alguns como a “corrida de cavalos clássica mais antiga do mundo” – em 1830.

Filho da Puta morreu a 25 de agosto de 1835 em Rock Hill Paddocks, em Nottinghamshire, Inglaterra, aos 23 anos. O seu legado – assim como o nome – ficou para sempre imortalizado na história das corridas de cavalos. O seu retrato, pintado a óleo sobre tela por John Frederick Herring em 1825, encontra-se exposto no Doncaster Museum Service, em Doncaster, Inglaterra.

A história pode – e certamente vai – esquecer-se de muitos nomes e feitos importantes. Mas uma coisa é certa: do Filho da Puta haverá sempre registo.

Fonte: Pedro Dias

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