Interpretação de anestesias de bloqueio – Por vezes o que parece, não é…

Interpretação de anestesias de bloqueio – Por vezes o que parece, não é…

Dr. Carlos Rosa Santos

A utilização do bloqueio de nervos é um dos pilares do diagnóstico de claudicações, porém, esta técnica está repleta de problemas de credibilidade – alguns testes produzem resultados falsos positivos enquanto outros produzem falsos negativos.A avaliação subjectiva da analgesia como diagnóstico pode originar erros no mesmo e como consequência no prognóstico e no tratamento, diz Michael Schramme, professor na Escola Nacional de Veterinária em Lyon, França.

Foram identificadas 15 razões possíveis para a má interpretação e diagnósticos errados no bloqueio de determinados nervos.

• Uma claudicação subtil ou intermitente• Avaliação do membro errado

• O clínico estar inclinado para um resultado esperado ou desejado

• Alterações do movimento devido ao uso de sedativos

• A dessensibilização mal interpretada depois da aplicação do bloqueio de um nervo.

Muitas vezes depois do bloqueio pressiona-se a área supostamente insensível com por exemplo, uma chave ou um ferro de cascos para se avaliar se o cavalo ainda reage. Porém, alguns cavalos não reagem mesmo sentindo a pressão o que faz com que o veterinário interprete este facto como a área estando anestesiada.

• Migração da solução anestésica para zonas superiores à pretendida o que faz com que uma área mais vasta do que esta fique insensível.

• Claudicação que melhora ou desaparece com um exercício de aquecimento e não devido ao bloqueio do nervo.

• Difusão da solução anestésica de uma estrutura sinovial articular para um nervo adjacente.

• Avaliação do movimento do cavalo sem esperar o tempo suficiente após o bloqueio.

• Má avaliação do clinico em relação às estruturas que estão insensibilizadas.

• Doença óssea subcondral (sob a cartilagem) que contribui para a dôr articular e que possibilita o aparecimento de resultados falsos negativos pois o bloqueio não insensibiliza esta zona do osso.

• A presença de nervos aberrantes (posição anatómica incorrecta) que não são afectados pelas técnicas convencionais.

• Impossibilidade da acção anestésica afecta movimentos de protecção desenvolvidos pelo cavalo devido a dôr cronica.

• Restrições mecânicas e não dôr causam movimentos anormais.

• Dores muito fortes (fracturas, laminites ou sepsia) que não podem ser anuladas.

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Schramme descreve algumas interpretações com mais detalhe: um dos grandes erros na interpretação está relacionado com uma administração deficiente da substância analgésica. Se o clínico colocar o anestésico à volta do nervo (fáscia peri-neural) em vez de directamente sobre o nervo, o efeito anestético não será tão rápido. Se por erro instilar a solução numa estrutura sinovial, o que pode acontecer em 50% dos bloqueios acima do boleto, o diagnóstico é confundido pois insensibiliza a articulação e não o nervo ou nervos pretendidos.

Quando se tenta injectar uma articulação ou bainha sinovial se se sentir fraca resistência no êmbolo da seringa, significa que a agulha não está correctamente introduzida na estrutura sinovial. Mesmo com a técnica mais apurada em 20% dos casos de bloqueio do nervo digital palmar a anestesia pode bloquear até ao boleto e em 5% dos casos até este pode ficar insensibilizado.Schramme afirma que a migração proximal (para cima) do anestésico, depois de se infiltrar um nervo, complica a interpretação. A recomendação é avaliar o cavalo não mais de 5 ou 10 minutos depois da administração do bloqueio e a utilização do menor volume de anestésico possível ou seja 1 – 2ml para a maioria dos bloqueios perineurais.

A difusão de anestésico das cavidades sinoviais pode fazer com que este entre em contacto com nervos, confundindo o diagnóstico.A interpretação do diagnóstico por esta técnica de anestesias é um desafio permanente para os médicos veterinários. Sabendo as possibilidades do aparecimento de resultados falsos ou positivos ou falso negativos ajuda os clínicos a perceber a mecânica deste tipo de diagnóstico e o evitar interpretações erróneas.

Em conclusão, por vezes o que parece, não é…

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