Gurma

Gurma

 

Dr. Henrique Moreira da Cruz

A gurma é uma doença altamente contagiosa que afecta todo o tipo de cavalos. Trata-se de uma doença infecciosa do tracto respiratório superior, caracterizada pela formação de abcessos na região da garganta, corrimento nasal, febres elevadas e depressão geral. Esta doença tem uma grande importância económica pois, uma vez diagnosticada, implica o isolamento dos animais afectados com restrições do movimento de todos os cavalos mantidos na mesma propriedade. Neste artigo descrevem-se as características da doença, o seu tratamento e as medidas a tomar para evitar o contágio.A gurma é causada por uma bactéria designada Streptococus equi. Esta doença é exclusiva da espécie equina e encontra-se espalhada por todo o mundo. Apesar de poder afectar qualquer tipo de cavalo, os poldros até aos cinco anos, são mais susceptíveis à doença. O contágio ocorre por contacto directo ou contaminação ambiental através das secreções respiratórias ou corrimento purulento (pus) de abcessos. Conforme será explicado mais à frente, a persistência desta infecção é devida ao facto de existirem cavalos portadores da bactéria, com um aspecto completamente saudável, e que por essa razão são extremamente difíceis de identificar. Cavalos portadores de Streptococus equi libertam a bactéria no meio ambiente tornando-se infecciosos para outros cavalos.

A infecção ocorre quando cavalos susceptíveis ingerem ou inalam partículas do ambiente contaminadas com Streptococus equi. Esta bactéria, uma vez libertada por um cavalo afectado, tem a capacidade de persistir no meio ambiente (camas, pastos, forragem, ração, utensílios, etc.) durante várias semanas. A infecção ocorre rapidamente e tende a afectar a maioria dos cavalos expostos à bactéria. Este organismo invade a região da garganta causando faringite e rinite agudas, com desenvolvimento de abcessos que tendem a ser bastante dolorosos. Este processo é acompanhado por um aumento súbito e elevado da temperatura corporal (febre). Os abcessos demoram, em média, 10 a 15 dias a amadurecer, altura em que ocorre ruptura da cápsula do abcesso com consequente drenagem do seu conteúdo, que consiste num líquido purulento (pus). Os abcessos localizam-se na região da garganta, podendo por isso romper internamente, drenando através das vias nasais (nariz) ou externamente, drenando directamente para o exterior através de uma abertura na pele. Por vezes, para um observador menos experiente, esta pequena abertura na pele, pode ser confundida com uma ferida; no entanto trata-se da rotura de um abcesso localizado numa posição mais superficial por baixo da pele (subcutânea). Depois de drenados, os abcessos tendem a atrofiar e cicatrizar rapidamente; seguindo-se na maioria dos casos uma recuperação total e completa dentro de uma ou duas semanas. Note-se no entanto que as secreções purulentas dos abcessos presentes nos animais afectados contêm elevadas quantidades da bactéria Streptococus equi, e são precisamente estas secreções que são altamente contagiosas para os outros cavalos em contacto.

Os sinais clínicos da gurma são dependentes do progresso da doença. Inicialmente nota-se depressão e inapetência, causadas pelo elevado aumento da temperatura. Com o desenvolvimento dos abcessos, o cavalo sente dor na região da faringe (garganta), e por essa razão tem dificuldade em deglutir pelo que pára facilmente de comer. De igual modo, o crescimento de abcessos na região da laringe pode provocar tosse, assim como ruídos respiratórios se o abcesso causar obstrução das vias nasais. Na maior parte dos casos os abcessos são palpáveis na região da garganta e os cavalos demonstram uma atitude dolorosa à palpação. O corrimento nasal e/ou de aberturas na pele na região da garganta constituem o sinal clínico mais típico desta doença.

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Existe alguma polémica na comunidade médico-veterinária em relação ao tratamento da gurma com antibióticos. Há veterinários que são da opinião de que cavalos com gurma não devem ser tratados com antibióticos, preferindo permitir que a doença corra o seu curso natural, com a drenagem dos abcessos seguida da eliminação da bactéria e recuperação do cavalo. Outros veterinários porém são da opinião que todos os casos suspeitos de gurma devem ser tratados com antibióticos, para prevenir o desenvolvimento e progresso da doença. Entre os dois extremos, será sensato avaliar cada caso individualmente dentro de cada surto de gurma, tendo em consideração as características do alojamento dos cavalos, e respectivas medidas de isolamento; grau de virulência do surto; gravidade dos sinais clínicos; número de animais afectados; número de animais em contacto, e respectivos proprietários; bem como considerações financeiras, entre outras.Além do tratamento com antibióticos, cavalos afectados com gurma podem beneficiar de tratamento sintomático. Anti-inflamatórios ajudam a baixar a temperatura e diminuir o grau de dor causado pelos abcessos, podendo ajudar o animal a sentir-se melhor e a começar a comer, contribuindo desse modo para uma recuperação mais rápida. Cavalos afectados tendem a apresentar-se bastante debilitados, sendo por isso importante manter um suporte nutricional adequado. A aplicação de compressas quentes sobre os abcessos favorece a maturação e consequente drenagem, contribuindo para o melhoramento dos sinais clínicos.

A partir do momento em que se suspeite que um cavalo esteja afectado com gurma, normalmente a partir dos sinais clínicos observados, devem ser implementadas medidas rigorosas de isolamento, não só dos animais infectados, mas de todos aqueles que vivem em contacto com os primeiros. Conforme foi dito acima, na maioria dos casos, esta doença tem um progresso benigno, e os cavalos recuperam total e naturalmente dentro de poucas semanas, mesmo sem a ajuda de tratamento médico. No entanto a gurma pode ter duas consequências, que apesar de serem raras, apresentam um grande dilema e desafio.Uma delas é o desenvolvimento de abcessos noutras partes do corpo que não a garganta, como por exemplo abdómen, tórax ou articulações. Quando estes abcessos maturam, podem rebentar, com consequente libertação de material purulento dentro do corpo. Isto pode causar uma reacção inflamatória tão severa que na maioria dos casos conduz à morte do animal.

A segunda consequência da gurma é o facto de alguns cavalos que recuperaram da doença terem capacidade de permanecer infecciosos, apesar da resolução dos sinais clínicos e o cavalo ter um aspecto completamente normal. Isto ocorre porque em alguns casos, durante o processo activo da doença em que os abcessos drenam na região da garganta (faringe), a bactéria causadora de gurma instala-se nas bolsas guturais do cavalo, e consegue sobreviver em harmonia com o organismo. As bolsas guturais são uma estrutura única à espécie equina. Trata-se de um compartimento isolado, aproximadamente do tamanho de uma mão fechada, localizado na região da garganta. Cada cavalo tem duas bolsas guturais, uma direita e uma esquerda. As bolsas guturais têm uma pequena abertura que comunica com a cavidade da garganta (faringe). Esta abertura normalmente encontra-se fechada, mas abre intermitentemente, permitindo às bactérias instalarem-se no interior das bolsas guturais e mais tarde serem libertadas de volta para a garganta e daí para o meio ambiente quando o cavalo tosse ou mesmo durante a respiração normal. Estes cavalos são considerados os portadores da doença e são os responsáveis pela ocorrência de novos surtos. É também devido à existência destes portadores, que têm um aspecto clínico completamente normal, que a gurma tem sido uma doença extremamente difícil de erradicar e permanece endémica em todo o mundo.

Qualquer cavalo que se encontre a convalescer de gurma, bem como todos os cavalos que tenham estado em contacto com este, deverá permanecer em isolamento até que se tenham obtido três resultados negativos de culturas da faringe, num período de duas semanas. Estes testes permitem a identificação dos portadores, que deverão depois ser devidamente tratados antes de libertados do isolamento.

Fotografia de uma imagem obtida com um endoscópio durante umexame as bolsas guturais de um cavalo em que se pode verificar apresença de acumulação de pus no interior da bolsa gutural.Se um cavalo produzir, num período de duas semanas, três resultados negativos de culturas da faringe, então poderá ser considerado como não-infeccioso, retirado da área de isolamento, e lidado como normal.As medidas de isolamento devem ser direccionadas pelo médico veterinário mas a responsabilidade de as pôr em prática cabe aos directores do estabelecimento, funcionários, proprietários, etc. Na maior parte dos casos não é possível impor medidas rigorosas de quarentena, pelo que o médico veterinário terá de basear o seu conselho consoante o tipo de instalações e quantidade de animais afectados na propriedade (ver quadro). Em Portugal não é comercializada vacina contra a gurma. Nos Estados Unidos e Austrália existe há já alguns anos uma vacina administrada pela via nasal que supostamente previne ou reduz a severidade dos sinais clínicos durante um surto de gurma. Contudo, o efeito da vacina é pouco duradouro, o que requer revacinação frequente. No Reino Unido, foi recentemente introduzida no mercado uma vacina contra a gurma, administrada por injecção intradérmica na mucosa do lábio superior, que tem de ser repetida todos os três meses para garantir imunidade. No entanto, mesmo nos países onde a vacina é usada com regularidade, a gurma permanece como uma doença endémica e extremamente infecciosa.

• A designação de um pátio ou ‘paddock’ como área de isolamento, que deverá ser geográfica e fisicamente isolada da restante área da propriedade. Se existir mais do que um picadeiro na propriedade, e caso este seja junto da área de isolamento, poderá ser possível designar também um picadeiro de isolamento para trabalhar os cavalos em convalescença enquanto se espera os resultados da cultura da faringe. Neste caso, tanto o pátio como o picadeiro deverão ser considerados como contidos na área de isolamento, não sendo necessário sair dessa mesma área para trabalhar o cavalo. Depois de resolvido o surto de gurma, estas instalações devem ser desinfectadas com rigor antes de receberem animais saudáveis.

• A designação de funcionários individuais para trabalharem exclusivamente na área de isolamento, devendo estes usar vestuário protector que deve ser desinfectado frequentemente. Estes indivíduos não deveriam estar envolvidos em quaisquer tarefas com cavalos fora da área de isolamento, se isto não for possível, deverão desempenhar primeiro estas tarefas antes de entrarem na área de isolamento. Depois de terem estado na área de isolamento os funcionários não deverão entrar em contacto com outros cavalos antes de terem desinfectado devidamente todas as regiões do corpo expostas (normalmente mãos, braços, pescoço e cabeça – é aconselhado tomar um duche completo a não ser que se tenha usado vestuário protector comprido incluindo luvas e capuz) e trocado de roupa.• A colocação de desinfectantes e pedilúvios distribuídos por vários pontos dentro da área de isolamento, principalmente nos pontos de entrada e saída destas áreas.

• Todos os instrumentos utilizados nos animais em isolamento, como por exemplo cabeçadas, arreios, escovas, vassouras, forquilhas, carrinhos-de-mão, mantas, ligaduras, etc., devem permanecer contidos na área de isolamento e ser utilizados única e exclusivamente nestes animais.

• O controlo das pessoas com acesso à área de isolamento.

Sobre o autor do artigo

O Dr. Henrique Moreira da Cruz licenciou-se em Medicina Veterinária pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto-Douro (UTAD) em 1993. Fez estágio curricular nos Estados Unidos da América e trabalhou no Reino Unido em diversas clínicas e hospitais de equinos; nomeadamente no Hospital de Equinos da Universidade de Edimburgo onde tirou a especialização em Ortopedia de Equinos. Faz parte do Concelho técnico do Equisport e escreve regularmente artigos originais na secção de Veterinária. A sua participação estende-se ao nosso website: Equisport Online (www.equisport.pt) na página FAQ Veterinária – Veterinário de Serviço.

O Dr. Henrique Moreira da Cruz pode ser contactado por e-mail para qualquer esclarecimento sobre os seus artigos ou qualquer outro tema sobre Medicina Veterinária.Em Fevereiro o Dr. Henrique Moreira da Cruz regressou do Reino Unido para Portugal onde se estabeleceu como Médico Veterinário especialista em Equinos na zona de Lisboa e arredores. Para mais informações pode ser contactado através do nº 91 498 9260.

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