Em busca da perfeição

Em busca da perfeição

“A equitação é o diálogo cara a cara com um cavalo, e a busca do entendimento e da perfeição.

” É assim que Nuno Oliveira descreve a sua filosofia no início de um dos seus livros, Notes sur l’enseignement.

É assim que ele pratica, do nascer do Sol até já noite cerrada. Quando encontra uma dificuldade com um cavalo, tudo o resto pode esperar: clientes, alunos e lições; primeiro, os cavalos.Passa a sua vida à procura do máximo de descontracção e de brilhantismo, em busca de uma equitação idealizada, estética, “dedicada”, em que o cavalo se exprima sem constrangimentos.Depois de ter adestrado os seus primeiros cavalos (Quantos terá montado? Centenas, milhares?) o que lhe interesse é a busca. Confidenciara a uma aluna que precisou de vinte e cinco anos para compreender e sintetizar as suas sensações. A obtenção do movimento certo com o mínimo de acção possível. “Todos os dias, dizia ele, aprendo alguma coisa.” Montar e observar, reflectir e ler, e montar.

Para Oliveira, o adestramento é “a busca da rondeur, da naturalidade harmoniosa”, “o aperfeiçoamento dos três andamentos naturais do cavalo”.  Concorda, portanto, mais de dois séculos depois, com La Guérinière, para quem “o objectivo da dressage é o melhoramento dos andamentos naturais do cavalo.” Para o mestre português, a arte equestre é a poesia de tudo isto”. Oliveira a cavalo, a poesia está na garupa. Com tudo o que a criação poética comporta de esforços, de repetições, de sofrimento, de «trabalho sem fim» para dar à luz um poema com beleza da evidência. E sem nunca transigir com a sua arte.

UMA FILOSOFIA, MAIS DO QUE UM MÉTODO

Segundo o seu discípulo Luís Valença, «Oliveira aproveitou a doutrina de todos os grandes mestres e, com uma paixão imensa, adaptou-a ao pequeno cavalo andaluz”. Mas não é por isso que a sua equitação se deve considerar «portuguesa». O que ele consegue com os Lusitanos, consegue-o igualmente com os puro-sangues, os anglo-árabes, etc. Em cada um, segundo os seus meios e as suas qualidades com cada um, o seu único método é «um método racional»: cada cavalo precisa de um raciocínio intelectual ligado a uma técnica irrepreensível. «O valor do método de Oliveira – é que ele não tem um método preconcebido.» «Contento-me com uma procura eterna da ligeireza, responderá Oliveira em 1964 ao cronista de Plaisirs equestres. Oliveira está convencido disso: debalde se emprega a força. A única maneira de se chegar a «adestrar convenientemente um cavalo é dando-lhe vontade e gosto pelo trabalho. Para isso, em vez de utilizar pretensiosamente termos abstractos para definir o tacto e sensibilidade, o Mestre escreve: «Há o tacto da mão, o tacto das pernas, o tacto do assento e tacto da cabeça.» Assim explicado até parece muito mais acessível! Tanto mais que Oliveira precisa que «só o homem que gosta do cavalo, o compreende e o sente, possui o tacto equestre.

Nuno Oliveira será para a arte equestre o que Émile-Auguste Chartier é para a filosofia, um grande prático e um grande desbravador. Conhece e ama a natureza dos cavalos como Émile ama e conhece a natureza dos homens, e ambos escolheram um humanismo cujo único dogma é ser inimigo dos dogmas. Como um pintor pontilhista, Oliveira apresenta a sua obra aos pedacinhos. Tentemos captar as grandes linhas do seu pensamento equestre.

Além da importância concedida à posição do cavaleiro e dos pormenores que ele dá a esse propósito – justificando-os , encontram-se algumas constantes tanto na sua prática como nos seus escritos. A progressão no trabalho, a ligeireza e a rondeur, a importância da espádua a dentro e do apoiar, a paragem, o trabalho a galope, e aquilo que será o seu «cartão-de-visitas», a passagem de mão e o piaffer.A equitação de Oliviera é «o equilíbrio e a ligeireza pela impulsão na cadência», como escreve Michel Henriquet. E cada cavalo dita a prática do cavaleiro. Para o seu amigo Jaime Celestino da Costa:  «Nuno nunca pretendeu ter criado um método. Só queria legar “princípios de orientação” que tinha ordenados na sua cabeça. O “oliveirismo” é um conceito que, até hoje, ninguém conseguiu definir ou reproduzir, seja a cavalo ou por escrito.» Os grandes artistas são inimitáveis! Luís Valença: A sua equitação não era física, mas sentimental, uma equitação de amor. Ele era capaz de transformar um cavalo: de um diabo ele fazia Deus.»

In “Mestre Nuno Oliveira”  de Marion Scali

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