Andamentos do Lusitano rumo ao futuro

Andamentos do Lusitano rumo ao futuro

 

Numa época de profunda crise social, onde a propalada falta de liquidez é palavra do dia, estão enegrecidas as nuvens do nosso dia coletivo, em todas as atividades, sendo que a criação de equinos não é obviamente exceção.

Por : David Santos Barata
Montijo e Lisboa, 27 Abril 2011

Criar cavalos é uma atividade não só dispendiosa como também morosa, que requer um acompanhamento permanente do criador. Requer também, por isso, um escoamento eficaz do que se produz.

A criação requer ainda a compreensão por parte dos criadores, no que devem encontrar um apoio efetivo e incondicional da APSL, que é essencial que o processo de criação e de desenvolvimento dos poldros se sustente num maneio adequado desde o início, no que tange à alimentação, desparasitações, suplementos vitamínicos.

Parece indubitável, por outro lado, que num mercado concorrencial como o atual, a palavra-chave de projeção do Lusitano no futuro é qualidade, porque esta é a única que vende, qualidade esta entendida em termos da sua montabilidade, qualidade de andamentos, morfologia, perfil psicológico dos animais, etc.

Os exemplos que têm sido dados pelos criadores brasileiros no que respeita ao fator promocional cremos serem paradigmáticos a este nível, apostados que estão numa seleção direcionada para o Lusitano desportivo, com vocação para a dressage, mercado de absorção dos produtos muito mais abrangente.

A criação é, ou tem que ser, um negócio rentável, porque se não o for não passa de um hobby, e aqui apenas para quem pode.

E a rentabilidade, no âmbito do Lusitano, parece encontrar-se fundamentalmente na dressage e na criação de animais com aptidão para esta disciplina, pois é sabido que o mercado dos cavalos de toureio é um mercado muito reduzido, como o é também o mercado da equitação do trabalho ou da atrelagem, ainda que a sua expressão não possa, nem deva, ser negligenciada.

Contudo, vender qualidade passa inelutavelmente também pela capacidade de saber promover os produtos junto dos seus destinatários, sejam eles profissionais ou meros amadores, que fazem apenas uma utilização lúdica do cavalo.

A pujança dos criadores vê-se também em quem os representa e neste particular, conhecidos que são os problemas recentes da APSL, é notória a diferença institucional entre a associação portuguesa e a sua congénere brasileira ABPSL

Mas diferente é também a postura comercial: pesquise-se na internet e veja-se a diferença entres criadores portugueses e brasileiros no que concerne à presença na rede mundial e na divulgação dos seus produtos.

Socorrendo-nos dos sites das coudelarias portuguesas, quantos têm a sua informação atualizada, no que às piaras de poldros diz respeito, poldros para venda já montados, com informações detalhadas e, já agora, com vídeos dos animais, à mão e montados? Infelizmente poucas…

A tudo isto não será estranho, pois, o número de negócios internacionais dos criadores brasileiros no primeiro trimestre deste ano, que ascendeu a 16 animais. (http://abpsl.rpm.com.br/noticia.asp?c=406)

Produzir animais de qualidade e depois não utilizar os inúmeros canais de divulgação desses produtos junto do mercado, mas do que um tiro no pé revela uma falta de estratégia evidente que urge mudar.

E já agora, enquanto veículo promocional do Lusitano, que é talvez o mais importante produto agrícola português ao nível da exportação, não podemos deixar de referir a Escola Portuguesa de Arte Equestre, que se debate com dificuldades, causadas em nosso entender por governantes que desconhecem e vilipendiam o valor intrínseco da academia, a todos os níveis que deveriam valorizar.

Quando uma das principais academias equestres europeias, onde se formaram e formam os grandes nomes da nossa equitação atual, não dispõe de um picadeiro coberto, que mais haverá a dizer?

Quando há muito a EPAE deveria marcar presença no seu picadeiro real, casa (ainda) do Museu dos Coches, onde a promoção da raça se faria de modo exponencial junto dos inúmeros turistas que visitam Belém, a Torre de Belém e os Jerónimos, mas onde essa decisão esbarra em burocráticos entendimentos políticos que nem sequer nos alcandoramos a entender, para onde caminha a raça na sua promoção?

Quem já foi à academia de Jerez e observou in loco como se promove uma raça, uma região, o merchandising e a cultura andaluza, percebe certamente onde pretendemos chegar com o que afirmamos…

Em súmula, são difíceis os andamentos do Lusitano rumo ao futuro.

Mas é na adversidade que a capacidade de reinvenção e superação mais se deve manifestar, criando e promovendo a raça, incrementando a sua qualidade, no toureio, na equitação do trabalho, na atrelagem ou na dressage. Várias linhas do Lusitano, para diferentes fins? Porque não?

À recém empossada direção da APSL expressamos votos de que possa reorientar os destinos da raça dentro dos parâmetros que se impõem, e que este cavalo, que é um cavalo da lusofonia e parte da nossa cultura coletiva, possa constituir numa época de agruras cada vez mais um orgulho nacional.

Se eu não morresse nunca e eternamente buscasse e conseguisse a perfeição das coisas
Cesário Verde

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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É sem duvida o tema que mais preocupa os criadores desta raça de Cavalos ou de qualquer raça de outro qualquer animal…. como Galinhas ou Avestruzes…etc…é digamos, um lugar comum.

Criar para vender é diferente do que criar para o progresso da raça.

O que se tem feito até há pouco tempo como todos sabem, é o primeiro caso e por isso temos um Lusitano principalmente bonito.

Vender, e vender bem de preferência deve vir na sequência lógica de um bom trabalho sobre um bom elemento e nunca ser uma preocupação constante porque afecta a qualidade do trabalho.

Há criadores com grandes manadas mas que não aguentam os seus produtos em casa até à resposta deles funcionalmente falando, pelos custos inerentes, e pergunta-se porquê tanta égua?….para todos os anos esperarem que na piara desse ano apareça o D. Sebastião que vai salvar as contas do convento?..com o risco de por ser jovem não o reconhecerem como tal e ir parar a mãos de quem o quer só para lazer anulando a potencial evolução da raça?

Diminuam as manadas cortando nos custos e trabalhem os seus produtos até eles responderem.

A qualidade deve preponderar sobre o numero de animais, e o nosso País pequeno como é, terá de escolher esse caminho…. e a nossa competência técnica é o garante.

Temos um historial dessa mesma competência e quem por esse mundo fora quiser o PSL, e esteja dentro destes assuntos, sabe onde ir buscar…. não tenham duvidas.

Poucos países no mundo têm a nossa aptidão natural e generalizada para lidar e montar estes animais.

Qualquer cavaleiro nacional que a nível particular vá trabalhar lá fora, fica espantado com a admiração que fazem por uma monte que ele aqui sabe ser normal.

São estes factores que estão e ficam na história fazendo a diferença.

Não tenham receio nem levantem Adamastores.
Criem e trabalhem bem os seus produtos que por aí é o caminho.

Saudações Marialvas
João de Deus
2011.04.29

Estou plenamente de acordo com a necessidade dos criadores investirem muito mais na valorização dos seus poldros. Ficam muito contentes de fazerem vendas de três ou quatro animais de 2-3 anos para a Alemanha ou França, para serem utilizados em picadeiros a ensinar meninos, e não estão dispostos em emprestar alguns dos seus produtos mais promissores a tantos jovens cavaleiros de ensino e obstáculos, que abundam nestes picadeiros dos arredores de Lisboa e Porto, e cujos pais não têm dinheiro para lhes comprarem além de uma pileca, o qual rapidamente os desmotiva. É só falar com os professores de equitação e eles contam-vos histórias de cortar o coração, de excelentes cavaleiros que nunca tiveram dinheiro para um cavalito decente e abandonaram.

Façam acordos de cedências, percentagens nas vendas e vão gostar de ver os vossos cavalos a competir pelo País fora. Tirem os cavalos jovens das manjedouras das vossas quintas e herdades, onde morrem de tédio e aguamento, e cedam-nos a cavaleiros escolhidos a dedo. Não se arrependerão.

Carlos Barbosa
2011.06.05