António Moura, a mão que segura as rédeas de Vilamoura na rota do sucesso

António Moura, a mão que segura as rédeas de Vilamoura na rota do sucesso

António Moura - CEO do Vilamoura Equestrian Centre

Por ocasião da edição de 2019 do Vilamoura Atlantic Tour conversámos com o Eng. António Moura, que nos deu a sua visão sobre este evento internacional e sobre os futuros eventos e projetos para o Vilamoura Equestrian Center. Recebeu-nos num dia de sol esplendoroso, e pudemos acompanhar a competição em curso, com bancadas bem compostas de público a acompanhar os cavaleiros.

Apresentou-nos ‘Vilamoura’ como um destino hípico consolidado e fulcral para a competição nacional e internacional ao mais alto nível, e um completo programa de competições agendadas para os meses de outono e inverno 2019/20 bem como o Campeonato Europeu de Juventude de Saltos de Obstáculos, que terá lugar em julho de 2020. Existem ainda planos e esforços constantes para inovação e reforço das infraestruturas existentes e para introdução de novas valências, que tornam o Centro Equestre de Vilamoura uma importante infraestrutura para o hipismo nacional, um factor de diferenciação regional e de dinamização da economia local durante os meses de época baixa do turismo de sol-e-praia.

Equisport (E) – Aproxima-se o fim-se-semana final do Vilamoura Atlantic Tour 2019. Que balanço faz o evento?

António Moura (AM) – O evento foi realmente extraordinário. Quando começamos há cinco anos tínhamos quatrocentos a quinhentos cavalos, e hoje estamos a trazer mil cavalos pelo segundo ano consecutivo. É a certeza da consolidação do evento e de que estamos no caminho certo, pois os cavaleiros repetem e cá regressam, duas e três vezes. É nessa fidelidade que vejo a confirmação do sucesso do evento.

As pessoas a retornam ao evento e trazem amigos, que por sua vez também o repetem, e portanto estamos muito contentes com a edição deste ano. Foram seis CSI de 3 estrelas, com duas provas qualificativas para o campeonato da europa deste ano, seniores, e para os jogos olímpicos, e na verdade isso é demonstrativo do reconhecimento por parte da Federação Equestre Internacional (FEI) da forma séria e do nível com que aqui trabalhamos.

Laura Renwick (GBR) / Bintang II. Fotos (c) Ana Escoval

 

E – Relativamente a esta edição destaca alguma prova ou cavaleiro em particular?

AM – A grande ganhadora deste ano, como tem sido noutros anos, é a Laura Renwick. É uma guerreira em cima dos cavalos e na verdade destacou-se nos cavalos novos, ganhou na final, o primeiro, o segundo e o terceiro lugares. É extraordinário! Nunca tinha acontecido. Ganhou na prova para cavalos de seis anos, na prova dos cavalos de sete anos e na de cinco anos.

Para mim foi a grande vencedora, embora também esteja muito satisfeito em ver cavaleiros portugueses a ganharem provas, coisa que não acontecia há 5 anos, e assim é que vemos o grande contributo que damos para o hipismo nacional, vendo os nossos cavaleiros a disputarem e a ganharem provas com os melhores cavaleiros da europa. É com satisfação que vejo isso, com vários cavaleiros a destacarem-se: o Luís Sabino, o António Matos de Almeida, o Duarte Seabra, e gente nova a aparecer e impor-se em casa. É algo que nos dá uma alegria muito grande.

E – A realização deste evento já começou há alguns anos, como vê o desenvolvimento do Vilamoura Atlantic Tour?

AM –Estamos aqui há 6 anos consecutivos, desde 2013, e na verdade agora foi a consolidação do evento. Está consolidado! Este ano tivemos cá, no cômputo geral, o mesmo número de cavalos que no ano anterior, com mais de 1100 cavalos ao longo do evento. Tivemos semanas com 900 cavalos, e isso é extraordinário e torna este evento um dos maiores da Europa desta época do ano. Destaco também a participação de muitos países, com um a maior participação de ingleses e franceses, mas depois temos também da América do sul, nomeadamente com brasileiros.

E – Este evento assume-se também como uma oportunidade para os cavaleiros portugueses competirem a alto nível?

AM – Isso sem dúvida! Hoje em dia eu posso dizer, e até pode soar a um bocadinho de falta de humildade, mas um português que não venha saltar a Vilamoura é porque não está na alta competição. A competição em Portugal resume-se a Vilamoura, infelizmente é assim. Os outros concursos têm vindo a desaparecer ou a abaixar o seu nível e portanto Vilamoura está hoje muito acima. É, em termos de contribuição para a FEI, o que mais paga face a todos os outros. Para além de Vilamoura, o único outro concurso que realmente tem nível internacional é o Global Champions Tour do Estoril que é um concurso de fim-de-semana e este aqui tem a grande vantagem de ser em seis fins-de-semana.

Hoje, ao contrário de no inicio em que andávamos à procura de quem queria vir, temos grandes chefes de pista, que é o principal neste tipo de evento, depois da infraestrutura, a base para uma boa pista. O chefe de pista é que faz o êxito ou não, é o que faz os cavalos progredirem e nisso temos muito cuidado e temos os melhores do mundo. Isto é uma oportunidade que também os portugueses têm de fazer provas com os melhores do mundo. Vê-se a evolução na camada sénior, que os nossos cavaleiros têm tido ao longo destes últimos cinco anos e lhes tem vindo a permitir algumas vitórias além fronteiras, e para as quais eu considero que foi decisivo terem passado por Vilamoura.

E – O que torna Vilamoura um polo tão atrativo do ponto de vista equestre?

AM – Em primeiro lugar a infraestrutura que criámos em Vilamoura, e os hotéis de grande nível, os restaurantes, o casino, a possibilidade de aceder a cinemas e a excelente marina, é um conjunto de oferta que permite um lifestyle muito atrativo e completo que dificilmente os cavaleiros encontram noutros locais, e a adicionar a tudo isto, o excelente clima que temos. Apesar deste ano, estarmos um pouco em clima de seca, tivemos um dezembro extraordinário e aqui em Vilamoura, mesmo nos dias chuvosos, é raro que chova mais que um dia seguido e por isso a nossa aposta no evento de dezembro. Vilamoura é o melhor sitio para ter cavalos e para fazer provas de saltos de obstáculos na europa e no inverno.

E – Que mais eventos e novidades estão programadas para Vilamoura em 2019-20?

AM – Vilamoura é mais que o concurso de inverno. Nós temos programados para este ano, um concurso de verão que também são duas semanas de concurso, de 5 a 15 de julho. É um evento que tem um cariz um pouco diferente deste, com mais cavaleiros portugueses e espanhóis, e terá uma grande participação espanhola, que no ano passado ainda foi maior que a participação portuguesa. Este ano, tendo em conta todos os ecos que me chegam e por todos os pedidos de informação que recebemos, creio que vamos ter uma participação que ultrapassará os quinhentos cavalos, e com uma participação espanhola superiora a 300 cavalos. Acredito que a participação portuguesa vai aumentar muito também, porque na verdade, como lhe disse anteriormente, os portugueses não têm mais opção. Na verdade, aqui em Vilamoura, criámos umas infraestruturas tais que podemos não dizer que somos os melhores de Portugal, mas sim que somos dos melhores da europa, portanto os portugueses têm todos a ganhar com isso, pois têm a oportunidade de frequentar das melhores instalações que existem na europa, onde os melhores chefes de pista são escolhidos, e onde tudo do melhor que se faz ligado ao mundo do saltos de obstáculos é criteriosamente escolhido. Depois do torneio do verão vamos para uma grande aposta de seis semanas em outubro, a começar no dia um e até onze de Novembro. Serão seis CSI de três estrelas que vão ligar, depois de duas semana de interregno e para os cavalos descansarem, com aquilo que é a grande novidade para este ano, com um novo desafio que será a realização de concursos hípicos de nível internacional, em dezembro, de vinte e nove de novembro até oito de dezembro. Desta maneira pretendemos criar condições para que os cavaleiros internacionais comecem a ficar por cá. Vilamoura proporciona aos cavaleiros europeus o melhor sitio para estarem durante o inverno.

Pretendemos que as competição de dezembro venha a ligar com algumas competições logo em janeiro, e seguidamente ligar novamente com Tour de fevereiro e março. Com este calendário temos condições para que os cavalos se fixem em Vilamoura de outubro a março. As infraestruturas atuais permitem aos cavalos estarem aqui em grande segurança e em qualidade, desde as pistas às boxes, temos todas as condições.

E – Em 2020 está também prevista a realização do Campeonato Europeu de Saltos de obstáculos da Juventude que engloba os escalões de Jovens Cavaleiros, os Juniores e Children. Como encaram a realização este evento?

AM – No seguimento do trabalho que temos apresentado a Federação Equestre Internacional apostou em nós e marcou para Vilamoura o Campeonato da Europa, que será de vinte a vinte e seis de julho. Com este campeonato todo as atenções estarão para aqui viradas, Vilamoura vai ser o centro das atenções da equitação de salto de obstáculos da juventude, e não podíamos ter melhor propaganda do que a possibilidade de organizar este campeonato. Nós já tínhamos organizado este campeonato em Vilamoura em 2004, em 2011 organizámos na Comporta, e em 2020 temos mais este desafio que com certeza será superado, porque eu tenho uma equipa extraordinária a trabalhar comigo e com muita experiência e profissionalismo.

E – Face a um calendário internacional tão preenchido, o que se passa neste espaço nos intervalos dos grandes eventos?

AM – Nesses intervalos existem obras, fundamentalmente existem melhoramentos, e também acolhemos alguns eventos regionais. A modalidade de dressage tem um grande peso no Algarve e que aqui acolhemos e organizamos provas do campeonato regional. Também acolhemos uma ou outra prova da modalidade de saltos de obstáculos de âmbito regional, para os cavaleiros locais poderem ter acesso a provas mais pequenas, por isso neste momento temos realmente a agenda toda completa.

E – Existe uma componente de formação de cavaleiros neste espaço?

AM – Atualmente aqui estamos focados para a competição, no entanto, e futuramente é esse também o desafio, atuaremos também como um centro de estágios e centro de alto rendimento, e aí a formação será uma opção. Faz sentido aqui em Portugal, ao termos cá um grande número de cavaleiros, fazer estágios com os melhores cavaleiros e treinadores do mundo. Este será outro passo que iremos dar pouco a pouco.

E – Têm programada alguma intervenção que complemente a oferta das atuais infraestruturas?

AM – Todos os anos somos isso obrigados e é uma característica nossa surpreendermos os cavaleiros com alguma coisa nova. Estamos em constantes melhoramentos, e já temos em ideia duas ou três coisas a nível de infraestruturas: uma pista de galope, para os cavalos galoparem, que seria muito importante; mais uma pista para trabalho no plano, porque quando estão aqui muitos cavalos por vezes estamos no limite da capacidade; e pistas para passar à guia os cavalos. Mas a pista a galope parece-me a infraestrutura mais importante para a qual trabalharemos gradualmente.

E – Como tem sido o apoio e o reconhecimento recebido por parte dos os agentes locais e regionais?

AM – As entidades regionais apoiam e são perfeitamente conhecedoras deste evento. Sabem que cada vez ele é maior e que é estruturante para a economia de Vilamoura, sobretudo agora que estamos na época baixa. Um exemplo atualmente é que se for a qualquer restaurante em Vilamoura encontrará sempre alguém que está ligado ao concurso. Este concurso trás mil e quinhentas a duas mil pessoas e gera uma receita para Vilamoura estimada em dois milhões de euros por semana, que é quanto gasta quem cá vem para o concurso. Perante estes factos as entidades regionais estão plenamente conscientes e agradecidas, assim como os hotéis, que tentam apoiar e apoiam sempre no máximo que podem. Quem está a falhar é o Turismo de Portugal e de uma maneira incompreensível do meu ponto de vista, pois começou a apoiar o evento há cinco anos quando este começou, e atualmente ainda estamos para receber o apoio do ano passado e deste ano não sabemos nada. Foi feito um convite, através do presidente da região de turismo do Algarve, para Secretária-de-Estado e para o presidente do Turismo de Portugal, para virem ver, sendo que a secretaria-de-estado esteve cá há 5 anos e ficou entusiasmadíssima. O evento agora já nada que ver com esse, pelo que gostávamos de lhe mostrar como foi bem aplicado o apoio que recebemos. Agora, de forma incompreensível não temos tido qualquer feedback pois não vieram cá, nem responderam ao convite que lhes fizemos. Tenho pena, porque realmente com um bocadinho de apoio, nós que temos todas as condições para sermos os melhores da europa, assim o seríamos e traríamos muito mais dinheiro para cá, pois é um evento que gera um retorno enorme, e que na luta contra a sazonalidade vai de encontro a todos os discursos que politicamente referem aquilo que se deve fazer para contrariar os efeitos da sazonalidade. Não faz sentido esta falta de apoio, que espero que seja reconsiderada e rapidamente reposta.

Texto e fotos de Ana Escoval

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