A Tradição da Casa Veiga (Parte I)

A Tradição da Casa Veiga (Parte I)

 

Ao reeditar este artigo na íntegra, inclusive com as fotos originais, que fora publicado em 1991 «in Equestre», assinado por mim e com forte contributo de minha mulher Ana, faço-o consciente que a Equisport dar-lhe-á grande visibilidade e audiência como é seu hábito e tal como sucedeu com outros meus escritos apresentados neste conceituado site equestre.

Mas cabe aqui também um agradecimento muito especial a Manuel Veiga por à época ter disponibilizado importante documentação da Casa Veiga relativa ao seu historial, o que nos permitiu durante 3 meses efectuar um trabalho de pesquisa por forma a elaborar este documento, que de outra forma seria impossível.

Por outro lado julgamos que este artigo serve para relembrar as coudelarias que souberam acompanhar a evolução do Puro-sangue Lusitano sem terem, em qualquer momento, desviado o seu rumo e sem renegarem as suas origens, mas bem antes dando relevo às mesmas!
Obrigado Manuel Veiga, obrigado Equisport !

Jorge Gouveia da Costa

Em pleno coração do Ribatejo, onde a tradição corre nas veias do tempo, o toiro e o cavalo apresentam-se como um desígnio de outras épocas, em inequívoca manifestação de uma vocação centenária das gentes ribatejanas.

Nos campos circundantes à pequena e simpática vila da Golegã, mundialmente famosa pela sua Feira do Cavalo, ou de S. Martinho para os mais tradicionalistas, situa-se uma das mais prestigiadas e conhecidas coudelarias lusitanas, ou segundo a sua nova designação de “Puro-sangue Lusitano”, a da Casa Veiga, criada nos primórdios do séc. XIX por Rafael José da Cunha, homem de reconhecido mérito e inteligência, que soube imprimir um cunho muito especial e dinâmico à criação cavalar e do toiro bravo.

Sendo arrendatário da Quinta da Broa e tendo posteriormente feito a aquisição da mesma ao Conde da Ribeira, Rafael José da Cunha iniciou a sua própria coudelaria de cavalos “peninsulares”, designação esta dada na época ao actual “lusitano”, que abarcava por vezes o próprio “Andaluz”. Além da Quinta da Broa, Rafael José da Cunha utilizou ainda os terrenos da Quinta de Vale de Figueira e os da Quinta dos Alamos, como zonas de desenvolvimento da sua produção cavalar.

Nesse intuito e procurando sempre uma criteriosa selecção dos produtos nascidos em sua casa, este criador veio a utilizar variados reprodutores, sendo de notabilizar os dois garanhões Alter oferecidos pelos Reis D. Fernando e D. Pedro V. Coube ao Engº Manuel Tavares Veiga prosseguir o trabalho iniciado por Rafael José da Cunha, seu tio-bisavô, que em herança lhe legou a Quinta da Broa e a sua já magnifica Coudelaria, tendo sido igualmente seus herdeiros os feitores da Casa e o guarda-livros, respectivamente: Frederico Bonacho, Carlos Marques e José da Mota Gaspar.

A continuada selecção de produtos desta Coudelaria foi preocupação dominante do herdeiro de Rafael José da Cunha, procurando criar um cavalo que pelas suas características melhor servisse ao toureio e, que, paralelamente apresentasse uma tipologia uniforme. Para tal fim, introduziu como garanhão o cavalo “Jerez”, um puro “Zapata” da Coudelaria de D. Vicente Romero Garcia. Posteriormente em 1909 lançou às éguas o hackney “Nabão”, para além de, em 1911 e entre 1912 e 1913, ter voltado a utilizar como garanhões dois cavalos da mesma raça, um deles com o nome “Valente”.

No espaço que medeia entre os anos de 1912 e 1928, foi a vez de refrescar novamente o sangue: assim, o “Pakir”, cavalo árabe, o “Ufano”, luso-árabe e ainda o “Rajha” vieram a beneficiar esta eguada.

O resultado deste trabalho não se fez tardar e, os êxitos dos cavalos de “chanfro acarneirado”, tipo nos cavalos Veiga, vieram a suceder-se em ritmo alucinante, criando uma acirrada procura destes por parte de todos quantos se dedicam ao toureio a cavalo.

Estava criado o mito. Era comum outrora e há hoje, quem destaque esta Coudelaria pela fixação do tipo do seu cavalo chegando a dar-lhe a legitimidade de raça ou sub-raça. Tal atitude não é de estranhar, dada a fama alcançada pelos famosos “Veiga” e, sobre esta questão Manuel Veiga descendente do anterior e actual gestor da Coudelaria a quem nos referiremos mais adiante, apresenta-nos o seu ponto de vista.

“O cavalo Veiga é acima de tudo um cavalo lusitano e, é evidente que nós defendemos o padrão desta raça; porém ele é o resultado de uma criteriosa selecção efectuada ao longo de muitos e muitos anos o que veio a marcá-lo com uma série de características especificas que levam algumas pessoas, porque existem entre elas grandes aficcionados do nosso cavalo, a afirmar que o cavalo Veiga hoje em dia é quase uma raça”.

Quando em 1950 veio a falecer o Engº Manuel Tavares Veiga, casado com a Srª D. Maria Tavares Bonacho dos Anjos Veiga, deixou como herdeiros D. Maria Eugénia, D. Roque, João Pedro, Carlos e Manuel.

Coube no entanto a seus netos Carlos e Manuel a missão de administrar e dirigir esta Coudelaria, o que supunha tarefa difícil e de grande responsabilidade, pois o facto de ela se encontrar constituída e a sua fama ser já grande além-fronteiras vinha inegavelmente a representar um forte desafio, aumentando sobremaneira a responsabilidade na continuidade de uma obra tão brilhantemente alcançada.

Através de um trabalho aturado e de uma enorme sensibilidade, os irmãos Carlos e Manuel não só souberam manter a Coudelaria na linha originária, como ainda procederam de forma eficaz e inteligente à renovação das suas éguas.

Infelizmente, em 1975, Carlos Veiga abandona prematuramente a vida e coube a seu irmão a prossecução do trabalho por ambos iniciado.

Foi uma época difícil, agravada pelos momentos conturbados que se viveram após a revolução de Abril de 1974, mas que Manuel Veiga soube superar com grande determinação.

Actualmente Manuel Veiga conta como emérito colaborador nessas tarefas com o seu filho Manuel que, como já referimos, foi inexcedível anfitrião na visita por nós efectuada e a quem cabe igualmente uma forte responsabilidade na eficiência alcançada na gestão da eguada da ganadaria e na exploração agrícola onde os aspectos tecnológicos mais avançados desde telecomunicações, equipamentos e informatização, se aliam em discreta e perfeita simbiose com as tradições da casa Veiga.

Na amena e informal conversa que mantivemos com Manuel Veiga, ao referirmos aspectos correlacionados com a criação do cavalo lusitano, abordou-se o tema da identificação da família com os seus próprios cavalos e a possível criação destes em função das suas necessidades e personalidades, ao que nos contestou:

“Dada a complexidade desta questão é por vezes difícil encontrar uma explicação para tal facto, porém pode afirmar-se que tanto as coudelarias como as próprias ganadarias bravas têm algo a ver com o seu próprio dono, dado que no fudo este tem tendência a seleccionar os seus produtos (cavalos ou toiros) em função da sua forma de estar na vida e da sua própria personalidade.

Na sua época, o meu bisavô procurou seleccionar um cavalo que fosse fino, nobre e bastante ágil e, teve sobretudo o mérito de jamais ter pactuado com as cruzas que se vieram a efectuar e que foram moda em Portugal, defendendo sempre algo de muito importante na criação cavalar, que é a consanguinidade, pela qual eu próprio continuo a pugnar, pois sem esta não existe raça pura e, embora haja quem ponha em causa este factor, a realidade é que sem esta não se consegue a homogeneidade que define as características próprias de uma conduta.”

( Já disponível a Part II do artigo)