A crise em 2012 e o Cavalo Lusitano

A crise em 2012 e o Cavalo Lusitano

 

Há quem diga que as alturas de crise (crise, do grego Krisis) são momentos únicos de oportunidades que se perfilham diante daqueles que se dignem agir para as agarrar.

A frase pode ter algo de dejá vu ou soar a frase feita, mas a verdade é que são inúmeros os exemplos de negócios que nascem, se implementam e singram em pleno período da propalada crise financeira e social, já para não falar de outras crises que, as dos princípios, as dos valores… Adiante ao que interessa.

A questão, no plano que nos ocupa, centra-se essencialmente nas perspetivas que se abrem ao cavalo Lusitano no chamado “contexto de crise”, enquanto produto agrícola que é, e nos desafios que se colocam aos criadores no que tange ao escoamento dos produtos, numa segunda vertente.

Na primeira vertente, e enquanto produto agrícola, o cavalo Lusitano à semelhança de outros produtos, sofrerá inelutavelmente com a quebra da sua procura, em face do retraimento de potenciais compradores que procurarão adiar o “timing” da aquisição ou, ao invés, sendo que quem mantém ainda algum potencial aquisitivo procurará celebrar algum negócio “ a bom preço” necessariamente motivado e encorajado pela necessidade do vendedor, onde se unem os critérios da necessidade e da oportunidade.

Ainda nesta vertente, e sendo Portugal a Pátria da raça Lusitana, talvez seja este o momento para, de uma forma concertada e estratégica, se procurar implementar a mensagem de “berço da raça” junto de novos mercados, nomeadamente o da América do Norte. Utopia? Talvez, para alguns.

Para que esta realidade emergisse teria forçosamente que contribuir o poder político com base num quadro estratégico bem delineado, ao qual se poderia (deveria!) juntar a APSL, numa lógica de alargamento de mercados em vista ao escoamento da produção da raça. Haverá vontade política para se promover lá fora um produto português de inegável singularidade, exclusividade e potencial de rendimento, económico e desportivo como é o cavalo Lusitano?

Voltámos a pesquisar no site do Ministério da Agricultura utilizando a expressão “cavalo lusitano”. Os resultados? Todos desatualizados, todos de 2010!

Confie-se na Senhora Ministra, recém-empossada, (o termo ainda se aplicará) e haja vontade de ser diferente nas ideias quando o dinheiro não abunda.

Reportando-nos agora à segunda vertente da questão que acima aflorámos, estamos convictos de que necessariamente terá que imperar acima de tudo a qualidade.

Como obtê-la? Bom, partilhando-se experiências entre criadores, promovendo-se conferências sobre genética na perspetiva do cavalo, sobre nutrição, entre muitas outras. O caminho é longo e os resultados não serão imediatos, mas surgirão no futuro.

A qualidade dos produtos deverá ser, na nossa modesta opinião, o eixo norteador da criação, cativos que estamos de um entendimento que se revê no argumento de que tudo aquilo que tem qualidade tem necessariamente mercado, com crise ou sem ela. Esta parece ser uma realidade indesmentível, pelo que seguir este caminho, sem reservas, não encontra argumentos contrários.

O criador que pretende produzir cavalos numa ótica alargada terá forçosamente que admitir que só a qualidade lhe interessará, ainda que numa menor escala no número de produtos. O criador que cria por mero recreio próprio, sem grandes preocupações no que concerne à escolha de garanhões e aos mais corretos emparelhamentos, esse, pois, lidará com a dificuldade (da venda) num contexto próprio, mas que é todavia assumido assumido.

A existência de um método bem definido, assente no conhecimento genético, desde as cruzas, passando pelos primeiros 6 meses de vida da piara, onde são imperiosas as necessidades alimentares bem estruturadas, o desmame e acompanhamento dos poldros e seu processo de socialização, o início do desbaste e ensino, que permitirá colocar no mercado um cavalo física e psicologicamente bem estruturado, é meio caminho para o sucesso das vendas.

Também para isso contribuirá, cremo-lo, a conquista de novos mercados, queiram as entidades públicas responsáveis, maxime o Ministério da Agricultura, perceber o imperativo histórico e cultural que sobre si impende de promover a Raça Lusitana.

É que quando cá chegam dignatários estrangeiros chama-se a EPAE para abrilhantar a festa. Depois da partida das visitas tudo se olvida, tudo se esquece, a escola, as suas condições de trabalho, o seu papel como ponta de lança da raça e esta, esquecida que é por fim, volta ao papel de parente pobre da agricultura. É que o filho gera-se mas depois não se pode abandonar, um filho que enche pavilhões desportivos em Lisboa e em em Paris.

A título de curiosidade e apoio ao que vimos defendendo, não deixa de ser curioso que a mera incursão na fotografia do Lusitano, potenciada através do “Lusitanos on Focus” (veja o vídeo clip) e cuja exposição esteve patente na recente Feira da Golegã, tenha já levado uma fotografia de um Lusitano que esteve presente na Coudelaria Vinhas e e onde foi fotografado a 4 de Maio de 2011 a uma galeria de Nova Iorque, sob o nome “Lusitano Stallion”, como se pode constatar na página 2 da exposição, acessível em http://bit.ly/v0cLJT
Com tão pouco se foi já tão longe!

Os criadores que querem produzir cavalos de performance evidente têm de encontrar eco nos canais de exportação e na abertura de mercados.

Sem apoio institucional esse caminho está inquinado, pois para que a qualidade apareça há que apostar financeiramente e esse capital tem que ter o necessário retorno, e com lucro.

Com menos recursos, dada a crise, mas com mais imaginação poderemos alcançar aquilo que para os velhos do Restelo não passam de utopias.

Ignoremo-los pois, do mesmo modo que acreditámos no espírito venturoso de outrora.

Centremos a nossa atenção no que poderemos fazer bem e que há muito se demonstrou que sabemos fazer melhor que outros, sem prejuízo do mérito destes.

Utilizemos a “crise” como um sinal de alarme dos tempos que correm e como espada com a qual esgrimiremos a adversidade na procura de novos caminhos e na implementação de novas ideias.

Haja para isso a vontade de todos e a vontade de reunir e gerar compromissos e, acima de tudo, a perspetiva de que para lá de um residual interesse individual está sempre um interesse coletivo, que a todos, sem exceção, aproveitará.

Lisboa, 15 Dezembro 2011

Este artigo foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.