
Para tudo isso também contribuíram o trabalho metódico e empenhado, a difícil aprendizagem para nos conhecermos um ao outro, a preparação dos automatismos repetidos cem vezes, mil vezes, para que os mesmos gestos se tornassem um hábito, um comportamento natural...festas e mimos surdos fortificaram a nossa cumplicidade...com os seus modestos andamentos de trotador, este pequeno cavalo negro não me pareceu ter, inicialmente, qualquer futuro entre os gigantes que participam nos concursos... O nosso caminho nem sempre foi fácil. Existiram momentos de desalento nos fins de tarde mal sucedidos; estes últimos ainda mais úteis do que o doce encanto e euforia das vitórias, por nos permitirem conhecermo-nos ainda melhor... No meio daquele estádio gigantesco (J.O. de Seul) e em menos de dois minutos atingiu a perfeição, escrevendo a página mais excitante da sua história...ao olhar-se um obstáculo sob certos ângulos só se conseguiam ver um par de orelhas negras e direitas do outro lado! Parecia impossível que este pequeno cavalo o pudesse transpor - de repente surgia a sua forma, enrolando-se sobre ele e planando seguidamente par se lançar temerário e infatigável em direcção ao próximo desafio. ...cada prova revelava o seu temperamento excepcional e cada um dos seus saltos me incutia mais confiança quanto às nossas capacidades... para com ele bastava que eu fosse paciente e me moldasse docilmente às suas pequenas manias: um reconhecimento preciso do terreno, a exploração minuciosa do "paddock" e as palavras de amizade, sussurradas, para lhe incutirem confiança. ...antes de mais, e para lhe agradecer, passei a medalha de ouro para o seu pescoço - era a ele que ela pertencia por direito (J.O. de Seul). Alegre, malandreco e um pouco teimoso, Jappeloup desfrutou sempre imenso dos seus momentos de lazer...na intimidade era um cavalo como qualquer outro: esquecido dos seus sucessos, não há nada que mais apreciasse do que um belo passeio junto ao mar ou no meio das vinhas... Malicioso e brincalhão, Jappeloup não suportava que eu não me ocupasse exclusivamente dele! Tinha que me empenhar para lhe demonstrar o meu afecto, caso contrário o "senhor" procurava de forma caprichosa, e recorrendo a todos os meios, reter-me junto dele... Ainda podemos apreciar pormenores da vida e carreira deste pequeno 'grande' cavalo lendo uns excertos do livro "Crin Noir" escrito por Karine Devilder em colaboração com Pierre Durand baseado em acontecimentos reais: "Perante vários incidentes e peripécias a oferta de 4.000.000 dólares acabou por ser recusada - "Jap" (diminuitivo por que era tratado em casa), mais uma vez, não tinha preço.
...Pierre conhecia o seu cavalo como um pianista a sua partitura...
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