“Ver a Passada” para o salto

“Ver a Passada” para o salto

Foto (c) Lisa Cueman.

Texto: Dr. Carlos Rosa Santos.

Quando falamos de “ver a passada” para o salto sempre tivemos a noção, primeiro quando aprendemos a saltar, depois quando ensinámos a saltar e ainda quando estudámos a biomecânica do cavalo e praticamos medicina veterinária desportiva, que o desenvolvimento da visão da passada para o obstáculo é qualquer coisa que não se aprende. Porém, o treino correcto e a ajuda de um instrutor com muita prática e conhecimentos melhoram bastante o “feeling”.

A capacidade de ver uma passada para um salto significa que o cavaleiro consegue ver ou sentir o ponto em que o cavalo deve fazer a batida a fim de superar o obstáculo que se aproxima. Se o obstáculo não for abordado correctamente o salto será mal feito com um potencial lesional e uma perda de confiança tanto para o cavalo como para o cavaleiro.

Todos os cavaleiros têm o seu próprio estilo individual, desenvolvido pela prática e com a ajuda de um bom instrutor. Há cavaleiros que embora consigam sentir que não têm uma boa passada na trajectória para um salto, não conseguem corrigi-la pois não determinaram previamente qual o ponto da batida ideal.

Basicamente existem três tipos principais de obstáculos: vertical, ria e tríplice.

Verticais incluem varas, barras e até muros e são os obstáculos mais difíceis pois são os que exigem o maior grau de precisão tanto do cavalo como do cavaleiro. O cavalo deve sair do chão e receber-se à mesma distância do plano do salto. Num vertical a 1 metro a batida deve ser feita a 1 metro e a recepção a 1 metro.

Uma ria ou oxer é um obstáculo mais difícil de saltar. O ponto da batida fica aproximadamente a uma distância igual à altura do salto mais a largura da ria. Uma tríplice é um salto largo com a vara de entrada bem mais baixa do que a de saída, em escada.

O fundamental para se ver uma passada é um trabalho de ensino correcto no plano. O galope é o andamento de trabalho de um cavalo saltador e um bom galope deve incluir:

1) ritmo
2) equilíbrio
3) movimento para a frente
4) galope ritmado a três tempos e
5) controlo

O galope pode variar, porém o cavaleiro deve conseguir alargar ou encurtar a passada com facilidade sem perder o ritmo ou o controlo da montada. O cavaleiro deve sentir a montada entre a perna e mão.

Alguns exercícios podem ser feitos numa linha recta com um galope de trabalho, montando o cavalo a direito e utilizando marcadores, contando as passadas.

As voltas devem ser sempre feitas sem alteração do ritmo do galope.

Alternadamente alargando a passada e contando ou encurtando com uma meia paragem suave, voltando a contar. Ao encurtar a passada posicionar os ombros ligeiramente para trás.

draw-8
VERTICAL DE 1 METRO

O cavalo faz a batida aproximadamente a 1 metro antes do salto. Utilizar uma vara de marcação a 0,70m antes do salto – deve-se fazer a aproximação num galope cuidadoso mas activo. Com este galope a recepção será a aproximadamente 1 metro de distância.

22

OXER DE 1 METRO DE ALTURA E 1,20M DE LARGURA

O cavalo fará a batida a aproximadamente 1,60m (1 metro para a altura e 0,60m para a largura). Coloque uma vara de marcação a 1,30m do salto, deixando 0,30m para a batida. De novo é necessário um bom galope de aproximação. Dê um salto com este tipo de galope. A recepção será feita a 1,60m do obstáculo.


TRÍPLICE

Uma tríplice em que a vara proximal esteja a 0,50m de altura. Coloque a vara de marcação a 0,20m do salto. Necessita-se de novo um galope redondo e activo. Neste exemplo a recepção deverá ser a 0,80m.

No geral um bom exercício é contar alto para se aperceber da sua precisão de passada para o salto. Monte para o obstáculo normalmente e começar a contar alto a seis passadas do salto, contando da primeira à última e continuando a contar após a recepção.

Se quem o ajuda estiver posicionado a 3 passadas do obstáculo será uma ajuda extra para si. Não se esqueça de não fazer sempre a aproximação ao salto para a mesma mão.

Faça com frequência um sumário mental do exercício: sentir um salto redondo. Sentir um salto fácil. Sentir o cavalo equilibrado. Sentiu-se equilibrado na recepção?

Quando se sentir bem, tente repetir a mesma aproximação e sentirá a mesma sensação de bem-estar. Noutras sessões vá introduzindo outro obstáculo noutra localização do plano e comece a interligá-los. E assim começará a “ver a passada”.

Por vezes aparecem bloqueios mentais pois alguns cavaleiros fazem um grande esforço para ver a passada o que se torna para eles um caso difícil. O melhor conselho para estes, é relaxar, respirar fundo, tentar melhorar o galope e deixar o obstáculo “vir ter” com eles.

Resumindo, conseguir um galope para diante, controlado e equilibrado. Deixe o obstáculo vir até si em vez de se precipitar até ele. Olhe para cima e para além do obstáculo. Mantenha sempre o mesmo ritmo. Respire fundo, não faça do obstáculo uma complicação. Treine com regularidade sem cansar demais o cavalo. Tenha sempre alguém para o ajudar com as varas e as distâncias. Veja vídeos de outros cavaleiros. Observe outros cavaleiros tanto em treinos como em provas.

E para terminar um conselho, seja persistente e confie no seu instrutor.