Coudelaria Ervideira (Parte II)

Coudelaria Ervideira (Parte II)

 

Uma “ressalva” que se nos escapou, mas que pela sua importância teríamos que mencionar neste artigo, com o propósito de esclarecer a verdade dos factos.

A partir de 1925, e tendo em conta a política de selecção de produtos adoptada por D. Luiz Ervideira, a coudelaria utilizou diversos reprodutores Andaluz e Lusitano, introduzindo garanhões da Estação Zootécnica Nacional, Vicente Romero, Domingues Hermanos, Diego Hernandez, Manuel Veiga, Alter Real, Viúva Terry, Rafael Romero, para além dos nascidos na própria casa e ainda outros mais que seria exaustivo aqui referir.

Para D. Luiz Ervideira, alcançar a homogeneidade da manada foi uma das suas preocupações, utilizando por vezes a consanguinidade como factor de apuramento, tal como explica no seu livro “Coudelaria de Luiz Perdigão de Sousa Carvalho (Ervideira)”.

“Para apurar e conseguir, mais rapidamente, a homogeneidade, enveredei cuidadosamente pela consanguinidade com o que nem todos os técnicos concordam.

Na minha maneira de ver, a consanguinidade, é absolutamente precisa para o apuramento até ao primeiro indício de deformidade física ou moral, em que terei imediatamente, de refrescar com cavalo da mesma raça, mas de família diferente”.

Actualmente a coudelaria Ervideira prossegue no caminho de aperfeiçoamento morfo-funcional dos seus produtos, cooperando nos momentos difíceis e conturbados de Abril de 1975, em que no entanto foi possível manter a manada coesa e controlada.

O trabalho de investigação e análise dos cavalos e nas características próprias tem ocupado os actuais responsáveis da coudelaria, como nos informa o Dr. Luís Cabral:

“Das éguas que possuímos, provenientes do núcleo original existiram três que constituíram como que três troncos da mesma coudelaria, cada uma delas com as suas características próprias, e que estão na origem do tipo de cavalo que procuramos criar e que possuímos actualmente.

Embora creia que não tenho o direito de ser pretensioso relativamente ao realizado pelo meu avô, aquilo que pretendo é dar continuidade ao seu trabalho, prosseguindo com o aperfeiçoamento genético de forma a optimizar os aspectos morfo-funcionais dos produtos.

No meu ponto de vista o cavalo deve ter uma funcionalidade, quer seja para o ensino, obstáculos, toureio ou qualquer outra actividade, pelo que procuro melhorar as suas características morfológicas e funcionais sem alterar as da raça”.

Nos últimos anos poucos têm sido os cavalos Ervideira que têm surgido nas arenas, e por lado a sua divulgação é mais acentuada no estrangeiro, questões estas a que nos contestou o Dr. Luís Cabral:

“Hoje em dia existem cavalos especialistas em diversas sortes e consoante as características do touro, que são bastante distintas de antigamente, o cavaleiro escolhe qual cavalo a utilizar.

As épocas em que se utilizava o mesmo cavalo para a lide completa do mesmo touro foram ultrapassadas. O nosso cavalo, pelas suas caraterísticas, pode considerar-se um bom cavalo de segunda saída face à sua versatilidade.

Penso no futuro que ele poderá vir a ser um cavalo de saída, mas para tal devem os criadores do Lusitano procurar cavalos com andamentos mais amplos.

Neste momento já existe uma evolução nesse sentido e não será difícil nem depreciativo, reconhecer que os cavalos Lusitanos actuais andam mais do que os de há vinte ou trinta anos.

Isto que anteriormente referi, não invalida que não existam “cracks” Lusitanos nas arenas e inclusive servindo de cavalo de saída.

No caso específico dos cavalos “Ervideira” dado que têm aparecido pouco nas arenas, julgamos possível que no próximo ano se apresentem em praça três dos nossos produtos. Quanto à divulgação dos cavalos do nosso ferro, é natural que o mesmo seja actualmente quase mais conhecido no estrangeiro que em Portugal, dado que ao longo dos anos, estes têm vindo a ser continuamente requisitados desde diversos países, o que nos alegra, pois certamente corresponderá à existência de uma matéria-prima de qualidade”.

A presença da casa Ervideira em diversos certames internacionais, com destaque para os de Madrid nas décadas de 50 e 60, veio reforçar o reconhecimento internacional dos produtos com este ferro.

Destaque-se ainda que por três anos consecutivos foram produtos “Ervideira”, quem conquistou o “Cavalo de Ouro” do Campeonato Nacional do Cavalo Lusitano, nomeadamente em Santarém no ano transacto através da égua “Eleita” e no corrente ano em Lisboa com “Donzela II”.

Também nas arenas portuguesas e espanholas o público se empolgou com a actuação dos “Ervideiras”, tal como foi o caso do famoso “Bombita” de Simão da Veiga, que igualmente utilizou o “Urgente” entre outros, “Armillita” de D. Pepe Anastacio, “Guerrita” de José Casimiro, “Zelador” de Murteira Correia, “Rendo” de Pedro Louceiro, “Junco” de Brilha de Matos, “Regedor” do Dr. Fernando Salgueiro e ainda muitos outros, alguns utilizados igualmente por Conchita Citron entre outros cavaleiros.

Em obstáculos o “Marrafa” oferecido pelo D. Luíz Ervideira ao então Maj. Jorge Mathias teve presença destacada nas pistas de obstáculos.

Coube, indubitavelmente, a “Beau Geste” ex “Xairel” uma presença marcante por essa Europa fora, através da mão do grande Mestre Nuno de Oliveira, que aliás possuiu largo número de cavalos “Ervideira”.

Seria injusto não referir aqui alguns produtos desta coudelaria do núcleo de cavalos cruzados, os quais conquistaram inúmeras vitórias em obstáculos, tais como, “Beduino”, “Ufir”, “Intruso”, “Vigoroso” e tantos mais que seria difícil aqui mencionar.

Terminada a nossa visita à “Herdade da Fonte Boa” permaneceu o sentimento que os descendentes do Conde de Ervideira são verdadeiros baluartes da continuidade desta centenária coudelaria

Nota Final: Aquando da publicação do meu livro “Coudelaria Ervideira -120 anos de História” em 2008, foi desenvolvido um estudo sobre a importância das éguas ” Fundadoras da Raça” no seu crescimento e desenvolvimento. Esse estudo foi realizado e publicado pelo Dr. João Costa Ferreira.

Acontece que me foi comunicado verbalmente pelo Dr. João Costa Ferreira que, no seguimento e investigação desse mesmo estudo, a égua BONECA nossa propriedade é hoje a égua mãe na nossa coudelaria e é também a égua mais procurada nos registos do último TOMO do Stud-Book, ou seja esta égua é hoje em dia a égua com maior número de descendentes na Raça Lusitana. É a linha mais desenvolvida na Raça.

Luis de Sousa Cabral
15/12/12

(parte I do artigo aqui)