Coudelaria Ervideira (Parte I)

Coudelaria Ervideira (Parte I)

 

Na continuidade do artigo sobre a “Casa Veiga” amavelmente publicado pelo “Equisport Online” e no âmbito do trabalho de pesquisa efectuado à época relativamente ao cavalo lusitano, é com grato prazer que agora trago um outro artigo publicado, abordando a coudelaria Ervideira e a sua grande importância na selecção do PSL.

Esta coudelaria possuía também um sector de cavalos cruzados, e foram muitos os que se destacaram no desporto equestre, nomeadamente em obstáculos, alguns dos quais tive oportunidade de montar. No entanto a nossa análise desta coudelaria debruçou-se única e exclusivamente sobre o Puro Sangue Lusitano.

Uma vez mais felicito e agradeço ao Equisport, na pessoa de Margarida Ferreira Neves, pelo notável número de leitores alcançado no anterior artigo e certamente que o mesmo virá a suceder com este apontamento da Coudelaria Ervideira

Jorge Gouveia da Costa


Ao Conde de Ervideira, José Perdigão Rosado de Carvalho, nascido a 10 de Outubro de 1862, no “Monte da Amencoca” em Évora, se deve a criação em 1880 de uma das Coudelarias de maiores tradições na Península Ibérica e de renome internacional, e que leva por nome o título nobiliárquico de família “Ervideira”.

Notabilizando-se pela profunda entrega à sua terra e às suas gentes, o então “Visconde de Ervideira” foi agraciado pelo Rei D. Carlos em virtude dos notáveis serviços prestados, sendo-lhe outorgado o título de Conde em 1902.

Por tal motivo, esta coudelaria utilizou de início, como ferro em E encimado por coroa de Visconde, à posteriori substituída pela de Conde

Em 1925, e por razões que por mais adiante explicaremos, o Conde de Ervideira delegou em seu filho, D. Luís Perdigão de Sousa Carvalho, a direcção da coudelaria a quem coube a criação do seu actual ferro, constituído pelo E inicial, e que numa atitude de extremo simbolismo se encontra inserido dentro de um coração, dado que este representava o ferro de D. Vicente Romero Y Garcia, herdeira da famosa coudelaria “Zapata”, tendo este criador espanhol fornecido a Portugal, quer através de particulares, quer por intermédio do Estado Português, diversos garanhões que vieram a beneficiar inúmeras éguas lusitanas de diversas coudelarias portuguesas e entre estas a “Ervideira”.Juntavam-se as “insígnias” de dois criadores de cavalos profundamente entrosados pelo sangue.

Porém, ao surgir este novo ferro não se deu por extinto o anterior, tal como explica o Dr. Luís Cabral, que com a sua habitual amabilidade nos recebeu na Herdade da Fonte Boa, em Évora onde actualmente se radica esta coudelaria:

“Após o falecimento do meu bisavô, fundador da coudelaria, foi esta dividida entre os seus três filhos, José, Artur e o meu avô, cabendo o ferro original, por direito próprio, ao mais velho e criando os seus outros filhos o seu próprio ferro.

No entanto, em termos de efectivo de éguas e cavalos, acontece que por razões da vida o núcleo que existe oriundo da fundação da coudelaria é o que se encontra em nossa casa”.

Recuando no tempo e voltando à época da formação oficial desta coudelaria, podemos constatar que esta nasce em função de um grupo de éguas adquiridas em 1980 a José Maria Ramalho Diniz Perdigão e a José António Camões, ambos de Évora, tendo sido utilizados, entre essa época e 1912, diversos reprodutores de origem portuguesa e espanhola das seguintes coudelarias: D. Simon Candau, Vaz Monteiro, Vicente Romero, D. António Miura, Caminos Hermanos e D. Juan Armario, para além dos garanhões já nascidos na casa do Conde de Ervideira.

No ano 1912 foram as éguas registadas na Comissão Técnica da Remonta, tendo então sido fornecido para esta, o garanhão “Armamar”, um Alter Real, filho de “Rebelde”, cavalo que deixou profundas marcas na Coudelaria de Alter.

Entre 1913 e 1914 seriam as éguas beneficiadas por “Machaquito” igualmente com o ferro de Alter Real.

Nos anos sequentes e até 1925, o Conde de Ervideira mostrou-se descontente com a orientação da coudelaria, dado que por indicação dos Serviços de Remonta do Exercito foram utilizados garanhões luso-Árabes de hispano-hackneys

Esta situação, como já referimos anteriormente, levou a que a Direcção da coudelaria fosse entregue pelo Conde a seu filho Luiz, que imediatamente iniciou um processo de selecção de éguas, beneficiando desde então as puras lusitanas por cavalos da mesma raça e sendo as cruzadas aproveitadas na criação muar.

Refira-se que tal pratica era frequente nas Casas Agrícolas de então, visto que como já foi dito as necessidades de existência de gado equino, quer para transporte, quer para trabalho, obrigavam à introdução de cavalos cruzados ou de outras raças, que não peninsulares, afim de responder às exigências de tais funções.

Com tal objectivo eram usualmente utilizadas éguas lusitanas segundo a escolha, ou mesmo de refugo, ou as cruzadas de anteriores gerações, mantendo-se intacto o núcleo fundamental das lusitanas seleccionadas para cruzamento com cavalos da mesma raça.

Este factor, de extrema importância e tão pouco esclarecido e divulgado, e que por vezes pode levar equívocos ou mal entendidos desnecessários, deve aqui ser referido e correctamente apresentado.

Aliás no meu anterior artigo focando a “Casa Veiga” foi referida a existência de garanhões berberes e hackneys nos primórdios dessa coudelaria, facto a que não alheios os aspectos anteriormente referidos, já que a selecção posterior do núcleo de lusitanos puros dessa casa agrícola seguia os mesmos parâmetros que todas as outras.

 Fotos: Gentilmente cedidas pela Coudelaria Ervideira.