Botulismo em Cavalos

Botulismo em Cavalos

 

Texto: Dr. Henrique Cruz

O Botulismo é uma doença neurológica potencialmente fatal causada por toxinas produzidas por uma bactéria produtora de esporos chamada Clostridium botulinum. Esta bactéria encontra-se distribuída por todo o mundo e causa doença com alguma frequência. Porém, devemos estar atentos às suas consequências.

A doença ocorre principalmente quando os cavalos ingerem forragem contaminada com toxinas. Os alimentos mais susceptiveis ao crescimento do Clostridio e respectiva produção de toxinas são o feno e a silagem. A bactéria encontra-se bastante concentrada nas carcaças de animais silvestres, aves e ratos. Muitas vezes os alimentos contaminados não apresentam cheiro nem aspecto alterado pelo que é difícil detectar a contaminação. A contaminação dos alimentos pode ocorrer durante o seu processamento ou durante o armazenamento. Tambem pode ocorrer intoxicação ao comer esporos presentes no solo (pastagem). A contaminação de feridas com esporos do Clostridium botulinum tambem pode resultar na absorção das respectivas toxinas e causar doença.

Após ingestão ou contato com uma ferida a toxina entra no sangue do cavalo, circula por todo o organismo e fixa-se nas células nervosas motoras bloqueando a transmissão de impulsos dos nervos para os músculos resultando num estado de fraqueza muscular e paralisita.

As toxinas do botulismo são muito potentes e os cavalos são extremamente sensíveis (a quantidade de toxina necessária para matar um rato é superior à necessária para matar um cavalo).

Os sinais clínicos, que podem resultar na morte do animal, podem ocorrer com muita rapidez após exposição à toxina. Normalmente nota-se: aumento de salivação devido à dificuldade em engolir saliva; deixar cair os alimentos da boca pela mesma razão; inapetência; falta de apetite; alterações nos andamentos; tremores musculares; postura de decúbito frequente; língua flácida e fora da boca. Devido à paralisia do trato intestinal, os cavalos tambem podem mostrar sintomas de cólica.

O diagnóstico definitivo pode ser um desafio. É possível fazer uma análise ao sangue para tentar detetar a toxina, no entanto este teste raramente é positivo em cavalos com botulismo, pelo que a sua utilização em clinica não tem grande valor. Fazer uma análise às fezes ou aos alimentos que o cavalo ingeriu é um teste com mais probabilidades de dar resultados fiáveis. No entanto, muitas vezes o diagnóstico é obtido por exclusão de outras doenças compatíveis com os mesmos sinais clínicos; como por exemplo: raiva; doença neurológica causada pelo herpes vírus equino; vírus da febre do Nilo e mielopatia causada por compressão das vertebras cervicais. Doenças neurológicas dos equinos como a mieloencefalite protozoária e as encefalites víricas são endémicas em algumas zonas do globo mas muito raras na Europa.

Se não for tratado, o botulismo geralmente culmina com a morte do cavalo. O tratamento consiste em cuidados de manutenção intensivos pelo que na maior parte dos casos é recomendada a hospitalização dos animais afectados. É necessário garantir as necessidades nutricionais dos pacientes. Deve ser estimulada a ingestão de alimentos. Nos casos em que isto não é possível os cavalos têm de ser alimentados através de entubação naso-gástrica. Por vezes tambem é necessário evacuar manualmente o recto e a bexiga urinária. Se o cavalo não se aguenta em pé, pode ser necessário mantê-lo suspenso com cintas de modo a evitar os problemas associados ao decúbito prolongado nos equinos. A administração de soro antitoxina é parte integrante do tratamento do botulismo. No entanto, é importante saber que a ligação da toxina às células nervosas é irreversível e não se desfaz na presença do soro antitoxina. O soro apenas previne que mais toxinas se fixem às células nervosas. A recuperação da doença passa pela capacidade do organismo do cavalo regenerar novas ligações entre o músculo e o nervo, o que geralmente requer cerca de 10 dias.

Tendo em consideração o exposto no parágrafo anterior, o prognóstico desta doença depende em grande parte da quantidade de toxinas a que o cavalo foi exposto. Outro indicador de prognóstico é tambem o facto de o cavalo se conseguir manter em estação livre ou não. Quando um cavalo permanece em decúbito por mais de 24 horas seguidas o prognóstico torna-se mau. Se o cavalo conseguir permanecer em pé, geralmente recupera a capacidade de comer sozinho ao fim de 10 dias após tratamento com soro antitoxina. Nos poldros o prognóstico tende a ser menos mau mesmo em casos de decúbito prolongado.

Quando os cavalos recuperam da doença, não tendem a ficar com qualquer tipo de sequela e podem voltar a ter uma vida completamente normal.

Nos Estados Unidos da América existe uma vacina contra o botulismo, no entanto a vacina não é comercializada em Portugal. Outras formas de prevenção desta doença consistem em escolher alimentos de boa qualidade, principalmente no caso da silagem e eliminar carcaças de animais mortos nas instalações onde se encontram os cavalos e os seus alimentos

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