As Ajudas

As Ajudas

 

O papel das ajudas na condução dum cavalo bem ensinado resume-se na seguinte fórmula: – «As pernas do cavaleiro dão ao cavalo a impulsão, as mãos regulam, por intermédio das rédeas, a forma de despender essa impulsão».

O acordo de ajudas é que consegue dar um bom equilíbrio ao cavalo, levando-o até a um grau de ensino elevado.

O velho mestre Franconi, ao ser um dia visitado por um príncipe real que lhe pedia que ensinasse o seu filho (cavaleiro de grande à vontade) a coordenar a acção das pernas e da mão, respondeu que montava havia 50 anos e que nem sempre conseguia um bom acordo de ajudas.

– Quantas vezes os cavalos respondem mal às ajudas do cavaleiro, porque estas ajudas não estão de acordo, contrariando-se?

A mão recebe o que as pernas fazem, regula, mas nunca contraria. O próprio efeito de conjunto, que tantos cavaleiros interpretam mal, resume-se num perfeito acordo de pernas e mão, que se ajudam mutuamente não se opondo.

Consideramos que a perna do cavaleiro começa na cintura e acaba na ponta do pé, e que, desde um ponto a outro, se deve sentir o cavalo.

As pernas estão unidas ao cavalo, mas não estão atarraxadas. A força que fazem é nula.

Se elas actuarem por pressão constante, o cavalo acaba por adormecer, sendo necessário tocar-lhe com bastante força para ele obedecer.

Pelo contrário, se de vez em quando aflorar levemente o cavalo, ele não adormece, e sente o mais pequeno toque.

As pernas actuam sobre o movimento; a mão regula-o, acelerando ou cadenciando-o, conforme se pretende.

O papel da mão, quanto mais o cavalo se vai adiantando, mais se vai restringindo à acção dos dedos. Um pequeno fechar de dedos, ou um pequeno relaxar, pode e deve ser o suficiente para aumentar ou diminuir o andamento. Essa pequena acção de mão, ainda que nos pareça que deva ser feita ao mesmo tempo, faz-se depois, nem que seja um décimo de segundo depois.

Está este principio em harmonia com a teoria de «fazer Equitação de trás para diante» e não o contrário.

Há casos em que a mão actua só. Antes desta actuação já as pernas deram a impulsão necessária para que só com a acção da mão o cavalo se mantenha com «élan» e não adormecido.

A posição da mão, conjugada com a posição da perna, posições estas variáveis conforme o que se pretende, pode dar diversas atitudes ao cavalo.

Ainda há dias ouvi manifestar uma opinião que à primeira vista parece certa, mas que, se for bem analisada e meditada, nos leva a conclusões diferentes.

Alguém, referindo-se a James fillis e ao seu sistema, dizia não compreender como é que este «écuyer» preconiza a acção das esporas adiante conjugada com a acção da mão, desejando manter sempre uma colocação de pescoço alta ao cavalo.

Parece que a espora aplicada às cilhas provoca sempre um espasmo do diafragma de que resulta o abaixamento do pescoço.

Se o toque for demorado, isso acontece, mas, se porém, a perna estiver solta e se der ataques levíssimos, a frente cresce, levantando o cavalo mais os seus membros anteriores.

Tudo está na maneira como se emprega determinada ajuda, sabendo o que se pretende para determinado efeito.

As múltiplas acções de pernas e de mãos são a linguagem que o cavaleiro possui para ensinar ao cavalo, para que mais tarde se compreendam.

O cavalo aprende bem ou mal essa linguagem, consoante ela é ensinada.

Aprende bem, se o emprego das ajudas for baseado num estudo das reacções musculares provocadas por essas ajudas.

Se elas estão de acordo com as leis da mecânica do cavalo, o ensino é fácil.

Aprende mal, quando se empregam as ajudas empiricamente, contrariando constantemente as acções do cavalo resultantes de determinada posição ou andamento.

Se se estudar um bocado o funcionamento da mecânica do cavalo, se se conhecer um pouco do seus sistema nervoso e do seu sistema muscular, possui se uma base sólida para empreender a educação do cavalo.

Só assim se sabe como se devem aplicar as pernas e as mãos para conseguir determinado resultado.

A Equitação é uma arte científica.

Não conheço nenhuma ciência em que não se tenha de usar a cabeça para pensar e meditar.

Creio que se pode dizer em boa verdade que se as pernas precedem a acção das mãos, a cabeça a raciocinar, precede a acção das pernas.

«Ma méthode met tellement le cheval dans la dépendence du cavalier que, par la combinaison des effets de jambes et de mains, nos moindres mouvements suffissent pou dirigir à notre gré les ressorts de ce puissant animal» – (François Baucher – 14ª edição, pág. 82).

Citei, para terminar, o grande mestre, mestre dos mestres de todos os tempos, que como o seu método nos ensinou que o emprego suave das pernas e das mãos e o seu acordo perfeito tornam o cavalo agradável de se montar, de corresponder às nossas solicitações, – «Vaillant dans ses hanches et galant dans sa bouche», como pretendiam os velhos mestres.

Nuno Oliveira
«Vida Rural nº92»
In “Breves Notas Sobre uma Arte Apaixonante” (A Equitação)

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